segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Posso votar no PT?: uma questão moral



1. Existe algum partido da Igreja Católica?
A Igreja, justamente por ser católica, isto é, universal, não pode estar confinada a um partido político. Ela “não se confunde de modo algum com a comunidade política”[1] e admite que os cidadãos tenham “opiniões legítimas, mas discordantes entre si, sobre a organização da realidade temporal”[2].
2. Então os fiéis católicos podem-se filiar a qualquer partido?
Não. Há partidos que abusam da pluralidade de opinião para defender atentados contra a lei moral, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. “Faz parte da missão da Igreja emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas”[3].
3. O Partido dos Trabalhadores (PT) defende algum atentado contra a lei moral?
Sim. No 3º Congresso do PT, ocorrido entre agosto e setembro de 2007, foi aprovada a resolução “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público[4].
4. Todo político filiado ao PT é obrigado a acatar essa resolução?
Sim. Para ser candidato pelo PT é obrigatória a assinatura do Compromisso do Candidato Petista, que “indicará que o candidato está previamente de acordo com as normas e resoluções do Partido, em relação tanto à campanha como ao exercício do mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §1º[5]).
5. Que ocorre se o político contrariar uma resolução do Partido como essa, que apoia o aborto?
Em tal caso, ele “será passível de punição, que poderá ir da simples advertência até o desligamento do Partido com renúncia obrigatória ao mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §2º). Em 17 de setembro de 2009, dois deputados foram punidos pelo Diretório Nacional. O motivo alegado é que eles “infringiram a ética-partidária ao ‘militarem’ contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto[6].
6. O PT agiu mal ao punir esses dois deputados?
Agiu mal, mas agiu coerentemente. Sendo um partido abortista, o PT é coerente ao não tolerar defensores da vida em seu meio. A mesma coerência devem ter os cristãos não votando no PT.
7. Mas eu conheço abortistas que pertencem a outros partidos, como o PSDB, o PMDB, o DEM...
Os políticos que pertencem a esses partidos podem ser abortistas por opção própria, mas não por obrigação partidária. Ao contrário, todo político filiado ao PT está comprometido com o aborto.
8. Talvez haja algum político que se tenha filiado ao PT sem prestar atenção ao compromisso pró-aborto que estava assinando...
Nesse caso, é dever do político pró-vida desfiliar-se do PT, após ter verificado o engano cometido.
9. Houve políticos que deixaram o PT e se filiaram ao Partido Verde (PV). Os cristãos podem votar neles?
Infelizmente não. Ao deixarem o PT e se filiarem ao PV, eles trocaram o seis pela meia dúzia. O PV é outro partido que exige de seus filiados a adesão à causa abortista. Seu estatuto diz: “São deveres dos filiados ao PV: obedecer ao Programa e ao Estatuto” (art. 12, a)[7]. E o Programa do PV, ao qual todo filiado deve obedecer, defende a “legalização da interrupção voluntária da gravidez[8].
10. Que falta comete um cristão que vota em um candidato de um partido abortista, como o PT?
Se o cristão vota no PT consciente de tudo quanto foi dito acima, comete pecado grave, porque coopera conscientemente com um pecado grave. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1868) ensina sobre a cooperação com o pecado de outra pessoa: “O pecado é um ato pessoal. Além disso, temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos: participando neles direta e voluntariamente; mandando, aconselhando, louvando ou aprovando esses pecados; não os revelando ou não os impedindo, quando a isso somos obrigados; protegendo os que fazem o mal.” Ora, quem vota no PT, de fato aprova, ou seja, contribui com seu voto para que possa ser praticado o que constitui um pecado grave.
“”””


[1] Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, n. 76.
[2] Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, n. 75.
[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 2246, citando “Gaudium et Spes, n. 76.
[5] Estatuto do Partido dos Trabalhadores, Versão II, aprovada pelo Diretório Nacional em 5 out. 2007, in: http://www.pt.org.br/portalpt/dados/bancoimg/c091003181315estatutopt.pdf
[6] DN suspende direitos partidários de Luiz Bassuma e Henrique Afonso. Notícias. 17 set. 2009, in: http://www.pt.org.br/portalpt/documentos/dn-suspende-direitos-partidarios-de-luiz-bassuma-e-henrique-afonso-254.html
[8] Programa: 7 - Reprodução Humana e Cidadania Feminina, in: http://www.pv.org.br/download/programa_web.pdf.

Angústia de um bispo


 Cícero Harada*




A angústia de Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis, explode na carta amiga de apelo endereçada aos seus irmãos no episcopado:

“Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora ‘Continente da Esperança’, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na ante-câmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.”

“Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917 (“a Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”). Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.”

“Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, além disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?”

Diante destas palavras duras e corajosas, lembrei-me dele. Monsenhor Pestana. Não era bispo ainda e eu, universitário quando o conheci.

Profunda lembrança guardo daquela figura. Seis horas de uma fria manhã, quinta-feira santa. Eu e vários universitários de São Paulo desembarcávamos sonolentos em Petrópolis. Lá, na Rodoviária, a nos esperar em sua batina preta, monsenhor Pestana. Apresentei-me.

Participei de um retiro com outros estudantes do Rio e de São Paulo. Foram ao todo três dias e meio de retiro espiritual. Espiritual, repito. Mas sem deixar de fazer notar as implicações teológicas e filosóficas na doutrina social da Igreja. Ele não se deixava levar pela demagogia barata do “politicamente correto”. Foi então que me ficou claro que a civilização ocidental não existiria sem o fato essencial e inquestionável da Igreja Católica e de seus ensinamentos. Sem ela ruiria a nossa civilização e a nossa cultura. Ela é parte fundamental da própria estrutura desse edifício. Findo o retiro, domingo de Páscoa, despedimo-nos. No seu olhar, espelho d’alma, o testemunho do amor a Deus e a cada um de nós. Partimos. Nunca mais o vi de perto. Nunca mais o esqueci, nem o poderia.

Encontro-o agora na tela fria do computador, graças a uma amiga. Suas palavras de angústia ante o quadro quase que humanamente irreversível de descalabros e de cumplicidades, para com políticas empenhadas “em apagar os últimos vestígios da nossa vida cristã”, tocam-me profundamente. A carta de Dom Pestana vale para todos nós, para mim, para você, porque somos partícipes da sociedade em que vivemos. Meu avô que não era católico, tantas e tantas vezes me alertava quando algo estava errado ou mal feito: “isso não está nada católico.” Hoje, tão distantes dos verdadeiros valores, mergulhados por inteiro no relativismo, não dizemos mais isso e ainda pensamos em fazer média e equilibrar na corda bamba. Seremos lançados todos no mais profundo dos abismos. Nesta hora tão grave, neste vale-tudo, as decisões e atitudes hão de ser igualmente claras e fortes. Como é fácil repetir com Ovídio aquela conhecida máxima: “
Video meliora proboque, deteriora sequor” (Vejo o bem e o aprovo, mas faço o mal). Não me recordo de tê-lo agradecido como deveria por aquele retiro. Faço-o agora, também pela carta. Dom Pestana, obrigado por seu testemunho!
* Advogado em São Paulo, foi procurador do Estado de São Paulo e conselheiro da OAB-SP

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A América Latina mergulha na ante-câmara do terrorismo vermelho


Anápolis, 11 de agosto de 2010

Caros irmãos no Episcopado,

Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.

Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora “Continente da Esperança”, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na ante-câmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.

Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917 (“a Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”). Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.

Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, alem disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?

Perdoem-me, mas não poderia deixar de falar, sem me sentir infiel à minha consciência e à minha Igreja.
Parabéns a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini e a Dom Henrique Soares da Costa.

In Xto et Matre,
Dom Manoel Pestana Filho

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um plebiscito para dividir fazendas?

 Dom Cristiano Krapf



Diante da pobreza de milhões de brasileiros nesta terra tão rica em recursos naturais, até pessoas bem intencionadas se deixam instrumentalizar por adeptos de uma ideologia anticapitalista e antineoliberal que ainda têm a ilusão de construir uma sociedade mais justa pelo atalho da luta de classes.
No último dia da Reunião dos Bispos em Brasília tivemos um tempinho para sugerir emendas para um texto de 55 páginas sobre a Questão Agrária.  O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, FNRA, quer envolver a Igreja na luta por uma lei arbitrária para diminuir as fazendas.
Faz muito tempo que tal projeto é tramado nos bastidores de setores que desejam radicalizar a reforma agrária. Falei que seria melhor insistir na exigência da função social de toda propriedade, em vez de perturbar o trabalho de pessoas que fazem a terra produzir. Tentei oferecer um texto crítico que fiz às pressas com argumentos razoáveis contra tentativas de atacar e atrasar o desenvolvimento de uma agricultura moderna num país com a vocação de ser o celeiro do mundo neste século de perspectivas ameaçadoras de conflitos crescentes por alimento, por energia e por água.
Não conseguindo distribuir a todos o meu texto sobre o tal plebiscito, o mandei aos colegas pela internet, junto com outro mais elaborado sobre a Questão Agrária para Bispos, que ainda está guardado no meu Blog, porque se refere à primeira versão do texto da CNBB, do qual ainda não vi a versão final.
Quando questionei o envolvimento oficial da CNBB numa campanha contra grandes propriedades rurais que só servirá para agitar ainda mais o ambiente rural, recebi a resposta que não seria publicado um documento oficial da CNBB, mas apenas um texto para estudo. No entanto, agora já começou a campanha com coleta de assinaturas e mobilização para o grito dos excluídos. Quem não participar, será acusado de estar do lado dos ricos contra os pobres.
Quando um bispo ou uma pastoral da CNBB assume posições muito definidas, colegas não gostam de apresentar opiniões divergentes. Foi assim quando alguns queriam mobilizar a Igreja contra projetos de transposição do São Francisco e contra hidroelétricas na Amazônia. O mesmo acontece agora com a Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra.
Não vejo por que todos os bispos devam marchar unidos contra projetos complicados que dividem as opiniões dos envolvidos e dos entendidos. Muitos deles fabricam argumentos para justificar suas posições, em vez de escolher seus objetivos de acordo com a verdade objetiva da razão.
Precisamos cuidar da unidade na fé. Em questões de política econômica, não cabe à CNBB impor seus pontos de vista a ninguém. As opiniões de cada bispo valem de acordo com o peso dos seus conhecimentos manifestados nos seus argumentos. Viva a liberdade!
A situação fica mais complicada quando uma proposta já assumida por pastorais foi apresentada por uma comissão nomeada pela presidência e passou pela maioria. No entanto, mesmo assim, o povo tem o direito de ouvir também o outro lado.
Não quero impor as minhas opiniões. Quero apenas oferecer meus argumentos aos interessados no assunto, e deixar claro que nenhum católico é obrigado a participar de uma campanha promovida por uma entidade qualquer, mesmo que conte com o apoio da CNBB. A Igreja não pode exigir que todos tenham a mesma opinião sobre problemas de política econômica, nem que todo católico venha embarcar na canoa furada desse “plebiscito”.
Na proposta que surgiu na nossa Assembléia faltou definir coisas importantes:
1 - Qual deve ser o tamanho limite das propriedades?
2 - A desapropriação será com indenização ou por confisco sumário?
3 - Quam receberá a terra pronta e as benfeitorias de presente? O invasor que chegar primeiro? Os amigos dos donos do poder?
Agora, a cartilha do FNRA já diz qual deve ser o Limite da Propriedade: 35 módulos fiscais. A cartilha explica que um módulo tem entre cinco e 110 hectares. O INCRA diz que regiões boas para culturas permanentes em São Paulo têm um módulo de dez hectares. Assim, propriedades acima de 350 hectares serão divididas. Você quer um pedaço?
Com leis que protegem fazendas produtivas já surgem invasões de áreas plantadas. Na Bahia, invasores de terras alheias cortaram pés de eucalipto com o argumento que pobre não come madeira. Alguém imagina que grandes plantações de laranja, café, cana, soja, eucalipto, seriam entregues sem resistência ao primeiro invasor que chegar? Ou será que ainda existem movimentos que sonham com revoluções?
No sertão difícil, os módulos são bem maiores, mas o pessoal não dorme no ponto. Vão procurar as regiões melhores. Já existem assentamentos que produzem pouco, mas que receberam casas perto de cidades. Outros querem lugares de futuro turístico. Assentamentos distantes só sobrevivem enquanto continuam recebendo ajuda dos pagadores de imposto.
Acho que a lei para limitar o tamanho das fazendas não vai vingar. Vingando ou não, a campanha vai provocar confusão e aumentar os conflitos.
Resumindo, a proposta do FNRA é esta: Confiscar as grandes fazendas:
Áreas acima de 35 módulos seriam automaticamente incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.  Em vez de dividir fazendas, por que não dividir os milhões dos milionários?  Para começar, seria bom tirar o ICM da Cesta Básica e diminuir os juros. Só com juros da sua dívida o Governo transfere aos ricos dez vezes mais do que dá aos pobres pelo  Bolsa  Família.
 

Dom Cristiano Krapf

Bispo de Jequié (BA)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”


“Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa.
Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César.
Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao Estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.
Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.
Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.
Na condição de Bispo Diocesano, como responsável pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que – por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus, como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender.
A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se: Ex. 20,13; MT 5,21).
Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”,  independentemente do partido a que pertençam.
Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.”

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, Bispo de Guarulhos-SP

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O divórcio-relâmpago fragiliza ainda mais a família



Ives Gandra da Silva Martins* 
(Folha de São Paulo – 08/07/2010).

A emenda constitucional, aprovada pelo Congresso, objetiva facilitar a obtenção do divórcio, suprimindo requisito relativo ao lapso temporal --de um ano contado da separação judicial e dois anos da separação de fato--, denominada de a "PEC do divórcio-relâmpago", a meu ver, fragiliza ainda mais a família, alicerce da sociedade, nos termos do artigo 226 'caput' da Constituição Federal.
Na medida em que os mais fúteis motivos puderem ser utilizados para que a dissolução conjugal chegue a termo, sem qualquer entrave burocrático, possivelmente, não possibilitando nem o aconselhamento de magistrados e nem o de terceiros para a tentativa de salvar o casamento, o divórcio realmente será relâmpago.
Não poucas vezes, casais que estão dispostos a separar-se, não percebendo o impacto que a separação pode causar nos filhos gerados, quando aconselhados e depois de uma reflexão mais tranquila e não emocional, terminam por se conciliar. 
 
ÍMPETO
 
Conheço inúmeros exemplos nos quais o ímpeto inicial foi contido por uma meditação mais abrangente sobre a família, os filhos e a vida conjugal, não chegando às vias do divórcio pela prudência do legislador ao impor prazos para concedê-lo e pela tramitação que permite, inclusive, a magistrados aconselharem o casal em conflito.
A emenda mencionada autoriza que, no auge de uma crise conjugal, a dissolução do casamento se dê, sem prazos ou entraves cautelares burocráticos. Facilita, assim, a tomada de decisões emotivas e impensadas, dificultando, portanto, uma solução de preservação da família, que foi o objetivo maior do constituinte ao colocar no artigo 226, que o Estado prestará especial proteção à família.
Entendo que a "PEC do divórcio-relâmpago" gera insegurança familiar, em que os maiores prejudicados serão sempre, em qualquer separação, os filhos, que não contribuíram para as desavenças matrimoniais, mas que viverão a turbulência da divisão dos lares de seus pais, não podendo mais ter o aconchego e o carinho, a que teriam direito --por terem sido por eles gerados ou adotados-- de com eles viverem sob o mesmo teto.
Como educador há mais de 50 anos, tenho convivido com os impactos negativos que qualquer separação causa nos filhos, que levam este trauma, muitas vezes, por toda a vida.
Por isto, sou favorável à maior prudência, como determinou o constituinte de 88, no parágrafo 6º do artigo 226 da Lei Maior. Tenho para mim, inclusive, que o capítulo da Família na Carta Magna de 88, por ser a família a espinha dorsal da sociedade, deveria ser considerado cláusula pétrea. 
 
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS é professor emérito da Universidade Mackenzie, em cuja Faculdade de Direito foi titular de Direito Constitucional.


terça-feira, 13 de julho de 2010

GÊNERO: O NOVO NOME DO MARXISMO

Por  Álvaro Fernández*

Muitos identificaram a queda do marxismo com a queda do Muro de Berlim; mas China segue sobre um regime marxista e em Cuba não se viu ainda “a hora final de Castro”, como profetizara Oppenheimer. Do que muitos não se deram conta, é que com a queda do Muro de Berlim, caiu apenas a União Soviética; mas o marxismo, como materialismo histórico ateu que é, segue gozando de muito boa saúde. Porque em que pese o marxismo como regime de governo totalitário e como modelo econômico tenha feito pedaços da URSS, ninguém pode negar que vestido de hedonismo, é uma cultura, se não dominante ao menos influente em muitos ambientes; sobretudo em ambientes capitalistas e, portanto consumistas. Sobre isso se poderia – se deveria – escrever um livro; através destas paginas, pretendemos apenas dar uma idéia geral do problema real que enfrentam dia a dia aqueles que lutam pela vida e pela família. 
É imponente o paralelismo encontrado entre a descrição do marxismo de Gramsci realizada pelo Dr. Rafael Gambra em seu livro “História simples da filosofia” (Editorial Rialp, pág. 213, 21ª ed.) e um documento publicado pela Conferencia Episcopal Peruana intitulado “Perspectiva de gênero: seus perigos e alcances”, que se encontra no n° 21 da Revista Arbil.
Segundo Gambra:  "As duas últimas décadas conheceram [...] uma evolução importante na ideologia (e práxis) do marxismo. Trata-se da obra que o marxista Antonio Gramsci (1891-1937) escreveu durante seus últimos anos nos cárceres da Itália fascista. Nela se dá uma moderação das teses rigorosas do materialismo histórico com fins mais didáticos. Para Gramsci as idéias e crenças não são simples emanação passageira da economia, senão que possuem uma realidade que constitui a cultura em que cada homem e cada povo vivem imersos. A idéia propulsora do pensamento gramsciano é que a Revolução nunca se realizará verdadeiramente enquanto não se produza de certo modo orgânico e dialético dentro do que Gramsci chama uma cultura, que é o que haverá de demonstrar e substituir o próprio tempo que se utiliza".
Aqueles que lutam pela vida e pela família, conhecem os perigos da perspectiva de gênero, e sabem a que se refere Gramsci quando fala de “demonstrar e substituir uma cultura ao mesmo tempo que se utiliza”: com efeito, os promotores do gênero, propõem “desconstruir a família - e por extensão a sociedade -, para logo rearmar a sociedade com parâmetros marxistas”. De acordo com o folheto da C.E.P, para as “feministas de gênero”, isto “implica classe, e a classe pressupõem desigualdade. Lutar por desconstruir o gênero – os papeis socialmente construídos – levará muito mais rápido a meta”.
Esta coincide em chegar a uma sociedade sem classes de sexo”. Meta que coincide, obviamente, com os fins da revolução marxista. O incrível do caso, é que tudo isto o fazem com a cumplicidade do liberalismo, e inclusive de alguns setores mais “conservadores” ou considerados de “direita” por alguns. O conceito “desconstrução” é considerado pelos ativistas de gênero, como a tarefa de denunciar as idéias e a linguagem hegemônica (quer dizer, aceitas universalmente como naturais), com o fim de persuadir as pessoas fazendo-lhes crer que suas percepções da realidade são construções sociais”.
Mas sigamos com a analise que Gambra faz sobre a obra de Gramsci e seu marxismo cultural: Se a revolução brota de um fato violento ou de uma ocupação militar, sempre será superficial e precária, e se manterá assim mesmo em um estado violento. O homem não é uma unidade que se justapõem a outras para conviver, senão um conjunto de inter-relações ativas e conscientes. Todo homem vive imerso em uma cultura que é organização mental, disciplina do eu interior e conquista de uma superior consciência através de uma autocrítica, que será motor da mudança. A vida humana é uma rede de convicções, sentimentos, emoções e idéias; quer dizer, criação histórica e não natureza.
Não há um só defensor ou defensora do gênero que não passe por pacifista, por vitima ou por defensor/a de todas as vitimas de ataques e discriminações que impõem a injusta sociedade em que vivem. A agenda de luta passa por não violenta, mas nos fatos violenta as consciências, o que é muito pior. Fica claro assim mesmo, que para Gramsci, tudo é criação histórica (“construção cultural” em código de “gênero”) e não natureza. Neste sentido, cabe lembrar que as feministas de gênero, consideram que o homem e a mulher adultos são construções sociais; que na realidade o ser humano nasce sexualmente neutro e que logo é socializado em homem ou mulher. Esta socialização, dizem, afeta a mulher negativa e injustamente. Por isso, as feministas propõem depurar a educação e os meios de comunicação de todo estereótipo e de toda imagem especifica de gênero, para que as crianças possam crescer sem que se lhes exponha a trabalhos “sexo-específicos”. Por isso falam também de “papéis socialmente construídos” quando se referem às ocupações que uma sociedade assinala a um ou outro sexo.
Segue o Dr. Gambra:
Daí o interesse de Gramsci pelo cristianismo ao qual considera germe vital de uma cultura histórica que penetra a mente e a vida dos homens, suas reações profundas. Será preciso, para que a revolução seja orgânica e “cultural”, adaptar-se ao existente e, pela via da critica e da auto-consciência, desmontar os valores últimos e criar assim uma cultura nova. O aríete para essa transformação será o Partido, vontade coletiva e disciplina que tende a tornar-se universal. Sua missão será a infiltração na cultura vigente para transformá-la em outra nova materialista, à margem da idéia de Deus e de todo valor transcendente.
Não é casualidade então, que faz dois anos, as feministas de gênero e seus sequazes, tenham inventado uma campanha para tirar do Vaticano o status de Estado membro da ONU. E que dizer a infiltração na cultura vigente, e de sua aliança com o capitalismo e o comunismo com fim de promover, em ultima instancia, o materialismo e o consumismo com o fim de promover, em ultima instancia, o materialismo e o esquecimento de Deus?
De acordo com Gambra:
"Sua arma principal será a lingüística (a gramática normativa) que penetre na linguagem coloquial, alterando o sentido das palavras e suas conotações emocionais, até criar em quem fala uma nova atitude espiritual. Se se mudam os valores, se modifica o pensamento e nasce assim uma cultura distinta".
Como não representar-se imediatamente ao chegar a este ponto, os termos “interrupção da gravidez”, “saúde sexual e reprodutiva”, “anticoncepção de emergência”, “pré-embrião”; assim como as mudanças aparentemente inócuas da palavra “amante” ou “concubina/o” pela palavra “companheiro” ou “sociedade de fato” e muito mais. O denominador comum é que todos levam ao erro e a confusão grandes massas de pessoas que como neófitos nestes temas, deixam de chamar as coisas por seu nome sem a mínima capacidade critica e engolem “o que diz a televisão”.
Comenta o documento da Conferencia Episcopal Peruana que para “desconstruir” a sociedade, as feministas de gênero propõem construir a linguagem, as relações familiares, a reprodução, a sexualidade, a educação, a religião, a cultura, entre outras coisas”.
Estas mudanças na linguagem são possíveis se houver mudanças na educação:
A educação é uma estratégia importante para mudar os preconceitos sobre os papéis do homem e da mulher na sociedade. A perspectiva de ‘gênero’ deve integrar-se nos programas. Devem ser eliminados os estereótipos nos textos escolares e conscientizar neste sentido os mestres, para assegurar assim que meninos e meninas façam uma escolha profissional informada, e não com base em tradições preconceituosas sobre o ‘gênero’”.
Depois, que ninguém se assombre se Maria Pia se “casa” com Ana Inês ou Ramon com Lourenço, pois este é o objetivo:
"O final da família biológica eliminará também a necessidade da repressão sexual. A homossexualidade masculina, o lesbianismo e as relações sexuais extraconjugais já não serão vistas como liberais como opções alternativas, fora do alcance da regulamentação estatal, em vez disso, até as categorias de homossexualidade e heterossexualidade serão abandonadas: a mesma ‘instituição das relações sexuais’, em que homem e mulher desempenham um papel bem definido, desaparecerá. A humanidade poderia transformar finalmente a sua sexualidade polimorfamente perversa natural".
Prossegue o Dr. Gambra:
O meio em que esta metamorfose pode se realizar é o pluralismo ideológico da democracia, que deixa indefeso o meio cultural atacado, porque nela só existem “opiniões” e todas são igualmente válidas. O trabalho se realizará atuando sobre os “centros de irradiação cultural” (universidades, foros públicos, meios de difusão etc.) no quais, aparentando respeitar sua estrutura e ainda seus fins, se inoculará um criticismo que os levará a sua própria destruição.
Se se consegue infiltrar a democracia e o pluralismo na própria Igreja (que tem nessa cultura o mesmo papel diretor que o Partido na marxista), o êxito será fácil. A democracia moderna será como uma anestesia que impossibilitará toda reação no paciente, ainda quando esteja informado do sistema pelo qual está sendo penetrada sua mente.
Veja-se se são conhecidos os nefastos resultados da implantação do pluralismo e da tolerância como valores absolutos em nossas sociedades: nada se pode criticar se é politicamente correto; tudo se deve criticar se é politicamente incorreto. Nossas débeis democracias se vêem ameaçadas dia após dia pelos asseclas da mentira e da morte, pelo terrorismo ideológico e por seus principais aliados, as máfias da desinformação.
O ódio a Igreja é capaz de unir neste “pluralismo” um individuo como Ted Turner, paradigma de capitalista liberal, com o marxismo cultural, a cujo serviço coloca diariamente a CNN. Este ódio se verifica também em diversas organizações pseudo-católicas, como as “católicas pelo direito de decidir” de triste memória; ou os membros da organização “Donum Vitae” na Alemanha, que segundo o próprio Núncio, atuam diretamente contra a vontade do Papa para emitir certificados de assistência médica requeridos para o aborto legal.
E termina Gambra:
"Daqui a revolução cultural, meta principal do atual marxismo, e movimentos como cristãos para o socialismo e outros semelhantes que delimitam isto que se chamou a auto-demolição da Igreja".
É dever de todos os cristãos contribuir para evitar essa “autodemolizione” da Igreja – cuja estabilidade graças a Deus, não depende da vontade humana -, tão buscada pelo marxismo cultural que agora se veste com roupagem de “gênero”: outra alteração da linguagem, esta vez para não assustar. Não menos importante é o dever de agradecer que uma das poucas vozes que se atrevem a defender a dignidade do homem e sua verdadeira liberdade, é a do Papa. Valente e sereno, enérgico e caritativo, o Santo padre custodia e defende a tempo e fora de tempo, a Verdade. Por isso, contra quem consciente e inconscientemente contribuem com suas acidas e incisivas criticas a essa “auto-demolição” preconizada por Gramsci, é necessário afirmar que o criticismo a Cátedra de Pedro, que é um golpe a Igreja, pois venha de onde venha, sempre contribui para destruição buscada por seus inimigos. Pois ainda sabendo que a barca de Pedro não perecerá jamais, nada exime aos cristãos de remar para levá-la a bom porto.   
Ante a tentação do criticismo, todo cristão deveria recordar – com a C.E.P. – que “os donos da nova perspectiva promovem o ataque frontal ao cristianismo e a toda figura que o represente”. Em 1994, Rhonde Copelon e Berta Esperanza Hernández elaboraram um folheto para uma séria de sessões de trabalho da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento do Cairo. O folheto atava diretamente ao Vaticano por opor-se à sua agenda que entre outras coisas inclui os direitos à saúde reprodutiva e por conseqüência ao aborto.
Este reclamo de direitos humanos elementares confronta com a oposição de todo tipo de fundamentalistas religiosos, com o Vaticano como líder na organização de oposição religiosa à saúde e aos direitos reprodutivos, incluindo até os serviços de planificação familiar.
Portanto, se os cristãos não tomarem consciência de que o marxismo cultural: a) existe; b) goza de boa saúde e c) está fazendo estragos nas consciências e nas almas de muitos homens e mulheres inocentes; se não permanecermos muito unidos ao Papa e ao seu Magistério; se não lutamos junto a Pedro e sobre Pedro, esta luta pela vida e pela família, dificilmente podermos contribuir para a derrota final do materialismo histórico encarnado no marxismo gramsciano. É demasiado grave a hora para que nós cristãos estejamos divididos, e pior ainda, distraídos, quando o que realmente importa é o restabelecimento da Cultura da Vida e da Família.

* Tomado de Catholic.net e traduzido por Fernando Rodrigues Batista.