quarta-feira, 10 de março de 2010

Homilia do Padre Paulo Ricardo a respeito do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3).


Homilia pronunciada no dia 31/01/2010, pelo Padre Paulo Ricardo* a respeito do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). O decreto pretende impor à Nação e aos Brasileiros que nele vivem, políticas desumanas e incompatíveis com o cristianismo. Trata-se de um instrumento para a criação de uma “nomenklatura”, uma casta de dirigentes alinhada com a ideologia governante e que, na prática, exclui os verdadeiros cristãos do aparato de governo.

Meus queridos irmãos e irmãs eu costumo sempre fazer a homilia a respeito do Evangelho, porém, o  missal permite que se faça a homilia a respeito de alguma necessidade da comunidade. Será o caso da homilia de hoje.
Nós vivemos em um tempo de graves e sérias mudanças em nosso país. Já no apagar das luzes do ano de 2009 o presidente da república assinou um decreto de um Plano de Desenvolvimento dos Direitos Humanos. O decreto é muito extenso, várias paginas, o português é jurídico, difícil de leitura, mas o que o decreto faz é o seguinte:
Ele cria duas categorias de cidadão, existe agora, a partir do Decreto de Sua Excelência o Presidente, dois tipos de brasileiros, aqueles que podem ser funcionários públicos e não são cristãos, e aqueles que são cristãos e são cidadãos de segunda categoria. Essa é a conseqüência desse decreto.
O decreto quer colocar algemas nos cristãos e tornar o cristianismo nesse país praticamente ilegal.
Porque através desse decreto nenhum funcionário público pode ser contra o aborto, nenhum funcionário público pode ser contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, nenhum funcionário público pode ser contra invasões despropositadas de terra. Nenhum funcionário público pode ser contra a lei e aquilo que é a política do governo de retirar de todos os locais públicos símbolos religiosos.
Este decreto do presidente da república cria cidadãos de 02 (duas) categorias aqueles que poderão ser funcionários públicos, se forem cristãos, serão cristãos com as mãos atadas; cristãos de amarras, algemas, mordaça...
O senhor presidente da república decretou que ninguém pode ser cristão e servir este país. A gravidade desse decreto, a gravidade desta decisão não está minimamente à altura do barulho que nós ouvimos na mídia e do barulho que nós ouvimos feito pelos senhores bispos do Brasil, que graças a Deus estão protestando, mas não estão protestando com a veemência que deveriam protestar.
Estamos vendo a instauração dos pressupostos de uma futura ditadura! Para que haja uma ditadura é necessário que haja uma nomenklatura, ou seja, um grupo de burocratas fidelíssimos que implantem essa mordaça na população, é assim que se faz uma ditadura.
É necessário que a Igreja Católica erga sua voz contra esta infâmia que Clama aos Céus. Se algum padre ou algum bispo pretende ser prudente e guardar o silêncio, eu não guardarei! Porque não quero entrar para a história como os bispos que covardemente não levantaram a voz quando Hitler começou a governar a Alemanha em 1933.
Meus irmãos, Hitler foi eleito democraticamente. E levou 6 (seis) anos para que ele finalmente fizesse um ato de guerra e invadisse a Polônia, durante estes 6 anos enquanto ele ia tomando o poder gradualmente e abolindo a democracia na Alemanha, pouquíssimos foram os bispos valorosos, tementes a Deus, que ergueram a sua voz para protestar contra esse tipo de desmando.
Não estou acusando o senhor Presidente da República de genocídio nazista e nem de ser um outro Hitler. Eu só estou fazendo um paralelo na história e dizendo que é vergonhoso que bispos e padres não estejam à altura do seu povo e de suas ovelhas e levantem a voz quando a falta de respeito pela população brasileira se torna clamorosa, infame, desavergonhada!
94% dos brasileiros são contra o aborto! E, no entanto esta corja de patifes que nos governa quer a todo custo implantar o aborto custe o que custar. Tentaram através de lei no congresso não conseguiram, agora, então, tentam através de decreto, para que então só haja funcionários do governo que se calem, amordaçados, e sejam punidos com atos administrativos aqueles que não seguirem a cafagestagem desta tirania que está abolindo com a democracia no Brasil.
Meus irmãos; é necessário que nós cidadãos e cristãos não fiquemos indiferentes. Eles irão repetir a ladainha de sempre de que a nossa religião é um fato privado e que ninguém deve usar a sua religião para colocar as políticas públicas. O problema é o seguinte, o ateísmo também é uma atitude religiosa, o ateísmo também é uma religião, o ateísmo também é uma forma de se relacionar com o fato religioso. Uma minoria de ateus desavergonhados quer amordaçar a maioria dos cristãos deste país. Eles dizem que ficam ofendidos com a presença de crucifixos nos nossos tribunais, e eu digo que fico ofendido com uma parede vazia no tribunal. Porque uma parede vazia num tribunal é também uma atitude religiosa, porque viver como se Deus não existisse também é uma atitude religiosa, porque, impedir os cristãos deste país de longa tradição cristã, 5 (cinco) séculos de cristianismo, de manifestarem publicamente a sua religião porque um grupelho de ateus imorais não quer ver a nossa piedade e a nossa religião é algo simplesmente inaceitável, é algo diante do qual nós não podemos nos calar.
Como pastor de almas, eu preciso dizer isto. Eu preciso dizer que não irei me calar diante de uma política do governo que quer implantar o aborto custe o que custar. Porque eu não quero carregar na minha consciência a mortandade de milhões de crianças que se seguirá a esta política genocida. Como pastor eu devo erguer a minha voz contra um governo que quer a todo custo equiparar o casamento heterossexual único e indissolúvel a uma união de pessoas do mesmo sexo, isto é uma afronta, isso é um insulto!
Nós não podemos dizer que o ato sexual homossexual tem a mesma dignidade do ato sexual heterossexual, meus irmãos todos nós nascemos de um ato sexual heterossexual, da união de um homem e de uma mulher. Todos nós devemos à santidade e a grandeza do sexo entre um homem e uma mulher a nossa existência. O que é que um homem com homem pode produzir, além de excrementos? O que é que uma mulher e uma mulher podem produzir? Absolutamente nada! A esterilidade destes atos sexuais não pode ser equiparada à grandeza e a fertilidade dos atos que Deus quis e planejou, que é o ato entre um homem e uma mulher. E a Igreja Católica não pode, não deve e se Deus quiser não irá se calar diante desta perversão.
Nós não estamos querendo colocar nenhum homossexual na cadeia, como eles, aliás, querem me colocar na cadeia, e a você também se você abrir o bico. Porque já existe no congresso tramitando uma lei, PL 120 (nota: trata-se do PLC 122/2006), que pretende punir como crime inafiançável qualquer ato de discriminação contra pessoas que advogam o sexo com o mesmo sexo. Eu não quero colocar nenhum homossexual na cadeia, enquanto houver sociedade cristã os homossexuais continuarão tendo o direito civil de ter as relações sexuais que quiserem sem ser ameaçados com a cadeia. Mas por favor, não queiram calar a nossa boca e não queiram nos obrigar a achar tudo isso muito bonito e decente.
Uma coisa é um crime, outra coisa é um pecado. O homossexualismo não é um crime, mas é um pecado! Porque não está no projeto de Deus, porque Deus não o quis. Todo homossexual enquanto os valores cristãos guiarem o nosso país, todo homossexual terá todo o direito de sê-lo, de ser homossexual o quanto quiserem e de fazer os atos sexuais que quiserem, mas não queiram que os elogiemos por isto, não queiram que nós achemos tudo isso muito santo e decente porque a palavra de Deus nos proíbe. Criminalizar esta minha opinião é criminalizar o cristianismo. Este PL 120 (nota: trata-se do PLC 122/2006) está simplesmente pretendendo criminalizar o cristianismo.
Vocês sabem que já está em vigor esta realidade no nosso país, não através de lei, mas através de jurisprudência. Aconteceu em Fortaleza que uma igreja evangélica, quis, pagou, e colocou outdoors na cidade, cartazes com versículos bíblicos e nada mais. Os versículos da Bíblia que dizem que o homossexualismo é um pecado, simplesmente “a frase da bíblia”, a citação, só isso. Um grupo do movimento dos direitos dos homossexuais entrou com uma ação contra esta Igreja e o juiz mandou retirar os cartazes. Vocês sabem o que é isso? Isso significa que o cristianismo no nosso país já é um crime, para alguns juízes já é um crime, para alguns juízes ter a opinião da bíblia é um crime. E assim eles vão instalando esse tipo de aberração no nosso país.
Querem que nós aceitemos o apoio total e irrestrito destes grupos de facínoras que invadem as terras e que tomam conta das áreas produtivas do nosso país para não produzirem absolutamente nada. Este bando de cafajestes chamado MST é o maior latifundiário deste país, entretanto não produzem uma banana. Porque o que querem é destruir simplesmente a nossa sociedade, a eles não interessa minimamente a produção, a eles não interessa minimamente aquilo que seja a ordem, aquilo que seja uma democracia.
Nosso governo que exige de todos nós todo tipo de documento, para sequer comprarmos na farmácia ao lado uma cápsula de aspirina, não exige um documento sequer do MST para despejar milhões de reais nessa organização criminosa. Não sei se os senhores sabem, mas o MST não existe juridicamente, eles não têm sequer um CNPJ, não existe a pessoa jurídica, não existe a firma MST, e mesmo sem, mesmo estando irregulares eles recebem milhões de reais todos os anos, do nosso governo, e o país adormentado, assiste a instauração de uma ditadura, e a perversão da ordem do nosso país.
Nós não podemos permanecer calados diante disso, Clama aos Céus este ato. Que um presidente da república seja irresponsável o suficiente de dizer que assinou este decreto sem ler, em qualquer país civilizado seria suficiente para um impeachment, para que ele já tivesse sido estromesso (Nota: deposto) do palácio do planalto. Que um homem assine um decreto desta enormidade, e diga que nem sequer leu, é de uma cara de pau tão grande, que nós não podemos sequer sonhar com uma coisa dessas. Como, senhor presidente, o senhor não leu, se todas estas cláusulas que o senhor acaba de assinar estava no seu plano de governo quando o senhor se candidatou pela primeira vez em 2002?
Infelizmente o nosso país elege presidentes não pelos seus planos de governo, mas elege presidente pelas propagandas eleitorais. Propaganda aceita tudo, (com) propaganda se faz aquilo que se quer. Infelizmente, infelizmente esta minha homilia não pode ser classificada como propaganda eleitoral para um outro partido. Porque infelizmente os outros possíveis e prováveis candidatos de outros partidos têm o mesmo desgraçado plano de governo.
Nós podemos nas próximas eleições ir votar e eleger, e escolher entre: lúcifer, satanás, belzebu, o diabo e o capeta. Porque tudo será, no final, a mesma coisa. Porque se o Lula defende isso, a Dilma também o defende, o Serra também o defende, e mais todo o resto da corja que quer se candidatar a presidente da república. Não existe partido, não existe partido que numericamente seja representativo, que esteja realmente representando a opinião do povo brasileiro. Infelizmente, infelizmente, os senhores congressistas, infelizmente os cargos que nós temos no executivo, e infelizmente também o judiciário, estão todos pela ocupação de espaço, pela política da ocupação de espaços, estão todos alocados para pessoas revolucionárias, anti-cristãs de esquerda.
Esta é a situação deste país. Esta é a nossa situação. Agora não esperem os métodos de Hitler, porque hoje em dia não se faz mais ditadura com derramamento de sangue, hoje em dia as ditaduras são feitas por revoluções de veludo, como este decreto que nós acabamos de assistir. As revoluções de veludo que vão, lenta e gradualmente, comendo os direitos democráticos sem que sequer as pessoas notem isso. Sequer as pessoas estão notando a demência que é pedir de um funcionário público que ele professe a fé no credo do governo e do partido governante. Isto jamais existiu numa democracia. Nós estamos sendo governados por uma ideologia que tem a sanha do poder. Eles não irão parar por aí. Se nós - nós - não fizermos ouvir a nossa voz infelizmente não existe nenhum movimento organizado para rebater isto tudo. Então o que podemos fazer de concreto? O que podemos fazer agora é abrir os olhos das pessoas para o que está acontecendo.
Para que isto um dia se torne um movimento. Para que isto um dia se torne um movimento de cristãos e não-cristãos, amantes da democracia que queiram deter esta raça de gente, esta raça de mal-feitores que desgraçadamente nos governa. Que Deus tenha piedade do nosso país!
Quero concluir esta homilia, recordando, porém, a providência de Deus, não para que nós fiquemos de braços cruzados não é isso. Mas para que não nos desesperemos. Deus está conosco e se Deus está conosco quem será contra nós? Nós podemos e devemos articular a nossa ação política para que como cidadãos tenhamos direito de existir como cristãos.
Meus irmãos eu não estou fazendo campanha de nenhum partido político, porque infelizmente eu os detesto a todos. Porque todos, todos, sem exceção são cúmplices desta enormidade que nós estamos assistindo. Não estou dizendo votem em fulano, em beltrano e sicrano, eu estou dizendo: Vamos acordar!
Deus está conosco. Deus é por nós. Mas se Deus é por nós, nós precisamos também ser por Deus. Deus está do nosso lado e nos defende. Mas nós também precisamos nos acordar. E realizar atos corajosos de protesto. Espero em Deus nosso Senhor que padres e bispos do nosso país, lideranças leigas, acordem para estes fatos e nós possamos assim, em período breve, organizar marchas pela liberdade. Não a favor de nenhum partido político, marchas pela liberdade simplesmente dizendo que nós não estamos de acordo a que os políticos no congresso nacional simplesmente estejam moucos (Nota: surdos) à voz da população.
Infelizmente do outro lado eles são bem informados, eles tem militância, eles tem constância, eles são aguerridos. Do nosso lado nós não temos militância nenhuma, então não adianta agora querermos conclamar nada. Precisamos primeiro tomar consciência, precisamos primeiro nos inquietar, para que depois, uma vez que haja uma população inquietada, possamos fazer uma manifestação pública, porque se eles não ouvem a voz de Deus e a voz da Moral, pelo menos a voz do voto de milhões de insatisfeitos eles irão ouvir!

* Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior pertence ao clero da Arquidiocese de Cuiabá (Mato Grosso – Brasil) e, desde 1996, é reitor do Seminário Cristo Rei, de Cuiabá.
Nasceu no dia 7 de novembro de 1967 e foi ordenado sacerdote no dia 14 de junho de 1992, pelo Papa João Paulo II. É bacharel em teologia e mestre em direito canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Atualmente, leciona nos cursos de Filosofia e Teologia.
Desde 2002, a Santa Sé o nomeou membro do Conselho Internacional de Catequese (Coincat), da Congregação para o Clero. (Currículo retirado do site do próprio Revdo. Pe, no endereço eletrônico: < http://www.padrepauloricardo.org/site/?page_id=2>).


Transcrição feita na integra pelo senhor Luiz Henrique Dezen Ramos.


segunda-feira, 8 de março de 2010

O monge e o passarinho*

Diálogo entre um religioso e um secular

Secular — Já que me sucedeu caminhar em tão boa companhia, hei de aproveitar a ocasião e perguntar alguns pontos que desejava saber.

Religioso — Folgarei eu de poder servir a Deus, e prestar ao próximo em alguma coisa.

S. — Padre: Para que Deus criou o homem?
R. — Para que o homem se salvasse, e salvando-se, lhe desse glória no Céu eternamente.
S. — E que coisa é salvar-se?
R. — É ver a Deus claramente, como ele é em si mesmo, gozar dele, amá-lo e louvÁ-lo para sempre.
S. — Pois Deus tem corpo, ou figura, ou cor alguma para o podermos ver?
R. — Deus é puro espírito: assim como os Anjos e as nossas almas também são espíritos. E por isso, nem os Anjos, nem as nossas almas tem cor, ou figura, que se possa ver com os olhos do corpo. Porém, o vermos a Deus não é senão com os da alma, que é outra vista muito mais clara e nobre.
S. — Para que são logo os olhos do corpo, ou em que se hão de empregar, quando estivermos no Céu?
R. — Não lhes faltará que ver. Verão a Humanidade Santíssima de Cristo, cuja formosura excede sem comparação à de todas as coisas visíveis. Verão todos os mais Santos bem-aventurados, cada um dos quais resplandece mais que o Sol, e todos juntos postos por sua ordem, formam um espetáculo admirável, e deleitosíssimo. Verão o formosíssimo palácio do Céu Empíreo, com cuja grandeza comparado o Céu estrelado não vem a ser mais que um breve pontinho que desaparece. Verão todas as mais esferas celestes, sua fábrica, ornato e grandeza. E verão também toda a redondeza da terra com a nova formosura, que há de ter depois do dia do juízo. Ó quem nos dera já logrado este estado.
S. — E por quanto tempo hão de ver a Deus os venturosos que se salvam?
R. — Já disse que para sempre, em quanto o mesmo Deus for Deus: Considerais bem este para sempre, para sempre, e pasmareis da Bondade de Deus, que tal prêmio promete, e do descuido dos homens, que tal felicidade não estimamos e procuramos.
S. — Tanto tem Deus que ver? E tanto que ser amado, e louvado que hão de estar as almas ocupadas nisto sempre, sempre sem cansarem.
R. — Filho: os bens e gostos do mundo, uns mais, outros menos, todos finalmente enfastiam e cansam, porque em si são limitados, e o homem não é feito para eles. Porém, a formosura de Deus é infinita: suas perfeições, excelências e grandezas não têm limite. E assim, ainda que houvera infinitos Anjos e almas bem-aventuradas, nunca por toda a eternidade acabariam de compreender tão grande bem, nem cansariam de o amar, e louvar, especialmente sendo os Anjos e os homens criados para o logro deste bem. E senão, dizei-me vós: a pedra por ventura cansa de estar quieta, e assentada sobre o seu centro? Não, por certo: porque esse é o seu lugar próprio, e aí se acha bem. Sendo, pois, a vista de Deus o centro das nossas almas, e o seu lugar próprio, onde se acham sumamente ditosas: que muito que não cansem de ver a Deus, e por conseguinte de o amar, e louvar eternamente? Para que esta verdade se vos faça mais crível, vos contarei um exemplo, que trazem graves Autores.

Estando um Monge em Matinas com os outros Religiosos do seu Mosteiro, quando chegaram aquilo do Salmo, onde se diz que mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem, que já passou, admirou-se grandemente, e começou a imaginar como aquilo podia ser. Acabadas as matinas, ficou em Oração, como tinha de costume: e pediu afetuosamente a Nosso Senhor se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe ali, no coro, um passarinho, que cantando suavíssimamente, andava diante dele dando voltas de uma para a outra parte, e deste modo o foi levando pouco a pouco até um bosque que estava junto do Mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma árvore; e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve intervalo (conforme o Monge julgava) tomou o vôo e desapareceu com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia mui sentido: Ó passarinho da minha alma, para onde te fostes tão depressa? Esperou. Como viu que não tornava, recolheu-se para o Mosteiro, parecendo-lhe que aquela mesma madrugada depois de Matinas tinha saído ele. Chegando ao Convento, achou tapada a porta, que de antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o Porteiro quem era, e a quem buscava. Respondeu-lhe: Eu sou o sacristão, que poucas horas há que saí de casa, e agora torno, e tudo acho mudado. Perguntado também pelos nomes do Abade e do Prior, e Procurador, ele lhos nomeou, admirando-se muito de que não o não deixasse entrar no Convento, e de que mostrava não se lembrar daqueles nomes. Disse-lhe que o levasse ao Abade: e posto em sua presença, não se conheceram um ao outro; nem o Monge sabia que dissesse, ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado de tão grande novidade. O Abade então, iluminado por Deus, mandou vir os Anais e histórias da Ordem: onde, buscando, e achando os nomes que o Monge apontava, se veio a averiguar com toda a clareza que eram passados mais de trezentos anos desde que o Monge saíra do Mosteiro até que tornara para ele. Então, este contou o que lhe havia sucedido, e os Religiosos o aceitaram como o Irmão seu do mesmo hábito. E ele, considerado na grandeza dos bens eternos, e louvando a Deus por tão grande maravilha, pediu os Sacramentos, e brevemente passou desta vida com grande paz no Senhor.

Este é o exemplo. Vede agora, que se a música de um passarinho pôde entreter aquele Monge trezentos anos com tanto gosto seu, que lhe pareceram poucas horas, e ainda desejasse que durasse mais: como não bastará a vista de Deus, que é um bem onde se encerram juntos infinitos bens, para suspender a nossa alma sem fastio, nem cansaço, por toda eternidade? Antes, com satisfação, e gozo tão cabal, como se naquele instante começasse a ver a Deus.

(trecho de O Pão Partido em Pequeninos, do Pe. Manuel Bernardes.)


[*] N. da P.: O título deste texto é de nossa autoria. (http://www.permanencia.org.br/)

sábado, 6 de março de 2010

Katyn - Resistente Polônia


Katyn
Diretor: Andrzej Wajda - 2007


Resistente Polônia

A vida do homem transcorre entre a aceitação e a resistência. São dois movimentos da alma que implicam a forma de viver uma identidade e um destino.
Aceitar a verdade é resistir à mentira e vice-versa. Por isso há duas formas de resistência: se pode resistir heroicamente ao mal, e pode se resistir obstinadamente ao Bem. Por isso a só menção da palavra “Resistência” não nos diz nada se não se diz a que se resiste.
Hoje que se lhe da um uso político instrumental orientado pela mentira ou meias verdades, um filme como Katyn vêm deixar bem estabelecido que a resistência da Polônia representa não só uma luta marcada em determinadas circunstâncias históricas, senão que sua resistência segue sendo a da Cristandade ante a barbárie do ateísmo comunista.
Praticamente desde que abraçou a Religião Católica em 966, a Polônia vêm resistindo com determinação para defender sua religião e, com ela, sua mesma existência como nação, atada a sua identidade católica. Terra localizada como uma muralha ante a maré da impiedade que vêm do oriente, a Polônia, que tem dado mártires que fertilizaram sua terra com a devoção a Maria e a fidelidade ao Papado, jamais – até o ultimo confronto mundial – havia entrado em guerra senão para a defesa da religião (Cfr. Polonia en la Cristiandad, Una mirada sobre mil años de historia, Walerian Meysztowicz, Ediciones del Águila Coronada, 1987).
Mostrar que não só estava em jogo a política na Segunda Guerra, senão principalmente outra coisa, é um dos maiores méritos deste filme. É mostrar a alma de um povo manifestando-se na lealdade ao seu próprio ser, esse que só pode perder-se caso perda a verdadeira identidade católica, cuja resistência acontece hoje ante o avassalador modernismo instalado oficialmente na Igreja com o Vaticano II.
A estatuária católica na vida dos polacos, cobra neste caso maior relevância e sentido simbólico, e não aparece já como simples atavio ou comentário a margem (como em algum outro filme de Wajda), posto que, se o cinema deste autor não costuma ter uma clara cosmovisão católica da vida, a magnitude e historicidade do que conta, o levam a um terreno onde necessariamente o transcendente tende a ser mais explicito.
Vejamos mais detalhadamente o que é e o que não é Katyn, e sua forma de ser conseqüente com o supradito.
Já conhecida a história que narra o filme, os fatos históricos que nunca se quiseram admitir ou se impediram contar e mostrar cabe perguntar-se, se Katyn é um filme “historicista” ou “contista”, isto é, têm apenas o objetivo de contar um acontecimento histórico e ao fazê-lo deixa que este propósito submirja a realização artística na mediocridade? Descuida o diretor a beleza do que tem nas mãos para fazer um filme panfletário ou propagandista? O fundo se alça em detrimento da forma? Em definitivo, o mais importante é passar uma “mensagem”? A resposta a tudo isso é: Não, tudo o contrário. Porque se é evidente o desejo e a necessidade trazer à luz os fatos históricos, o filme não se limita a isso. Wajda, às vezes incorreu em seu cinema em um excesso de “expressão” em detrimento da narração onde talvez o traiu aquilo que sintetizava Bresson assim: “Idéia vácua de “cinema de arte”, de “filmes de arte”. Filmes de arte: as mais carentes de arte” (claro que se Wajda caiu nisso por excesso, precisamente Bresson caiu mais ostensivamente nesse erro por defeito). Mas Wajda, repetimos, se esquiva destes deslizes em Katyn, fundamentalmente por três motivos:


Os Arquétipos:

O filme conta um fato histórico, mas dentre dele a história de alguns personagens que, em sendo indivíduos em tais circunstâncias, são também arquétipos (dai que possuem apenas nomes, não sobrenomes) de quem sofrem imersos em um drama que os colocam a prova na luta por conservar uma identidade, uma forma de vida, uma religião, uma pátria, uma família. Wajda conhece bem aquilo que mostra, a dinâmica das emoções de seus personagens, a verdade que se reflete melhor que nas estatísticas nos rostos, na angustia, na esperança, nos “sofrimentos individuais”, como ele mesmo disse.
Wajda apresenta com intensidade e força, sem cair em golpes baixos nem na atitude “vitimista” que conhecida em quase tido cinema político, o drama da pátria polaca através de seus homens e mulheres, dos oficiais e intelectuais, das esposas e mães, filhas e irmãs, transtornados pela dupla invasão alemã e soviética e impotentes ante a mesma. Os soldados, preparados para lutar, devem, no entanto, aprender algo mais difícil, ao encontrarem-se prisioneiros: a resistência passiva, a luta interior. As mulheres, habituais companheiras daqueles, devem resistir na solidão, fustigadas pela lembrança e a incerteza. O vínculo intangível do amor, não o ódio, é o que, posto a prova, sustenta os personagens em sua luta cotidiana. A ausência dos homens é também a ausência da pátria, o sofrimento das mulheres é o sofrimento da pátria.
Dessa pátria que finalmente se decide no gesto final dos homens ante a morte.


O Religioso:

O filme supera a literalidade dos fatos e da forma de mostrá-los porque o diretor lhe outorga um valor que o transcende. Esse valor é o do religioso, e seu método é o símbolo.
Desde o começo advertimos a identificação entre Polônia e o catolicismo. A primeira coisa que observamos ao chegar a mulher que busca seu esposo entre os feridos, ali por onde marchou o exército vermelho, é a ausência de Cristo em um crucifixo quebrado. Quase de imediato o descobrimos entre os mortos e feridos, assistidos por um sacerdote. Se Jesus Cristo é a primeira vitima é porque o ódio comunista se dirige em primeiro lugar a Ele (“Deus é o inimigo pessoal da sociedade comunista” dizia Lênin em uma carta a Gorki). E se o padre lhe da a extrema-unção como aos outros não é porque Nosso Senhor a necessite, senão porque Nele estão representados todos aqueles a quem não poderá assistir, aqueles desconhecidos “pobres Cristos” que caíram sobre o furor da besta desatada.
A presença da oração, dos cânticos, do rosário entre os oficiais prisioneiros confinados em um antigo monastério ortodoxo, distingue uma elite de homens valorosos, patriotas e insubmissos que por isso mesmo, Stalin decidiu os aniquilar.
Memorável e emotiva a cena final, felicidade e saúde das almas que, ainda que em meio ao horror e ao medo, se entregam a vontade de Deus.
O sentido sacrifical conferido a estes homens se vê mais claramente no capitão Andrzej, que leva acima do uniforme um pulôver de lã branca que não lhe pertence, como o cordeiro que se entrega mansamente e derrama seu sangue pela Polônia (recorde-se: poderia ter escapado quando sua esposa o foi buscar, e decidiu ficar).
Mas também onde está Cristo há um Judas, neste caso o amigo que na prisão lhe dá seu pulôver. Este é o único que sobreviverá ao grupo, somando-se ao exército de ocupação; finalmente, presa do remorso, acabará como o primeiro traidor.



O trágico:

Também a vinculação com a tragédia dota a história e aos personagens de um conteúdo universal e perene. O substrato mítico conferido pelo trágico evita que o filme caia no historicismo.
As duas irmãs do aviador que jaz nas fossas de Katyn, Agnieszka e Irene, revivem o terrível conflito das irmãs Antígona e Ismene da tragédia de Eurípedes. As duas representam duas formas de afrontar a vida cotidiana durante a ocupação soviética. Agnieszka não pode suportar viver na mentira, nem que seu irmão não tenha um tumulo. Poderia dizer como Antígona, sobre o invasor: “Não lhe é possível separar-me dos meus”, ou, já definitivamente julgada por acometer seu plano: “Eu não lhe enterrarei. Belo será morrer fazendo-o”. Sua irmã Irene, em troca, resignada como Ismene (“Não é conveniente perseguir desde o principio o impossível”), mostra a impotência de quem deseja e não pode seguir vivendo em uma situação incomoda e onde a prudência a imprudência, a frontalidade e o dissimulo, a verdade e a mentira exigem distintas decisões, onde possui papel importante a idade e o temperamento. Por isso os mais jovens, com sua natural impaciência, não podem conter-se e se lançam impulsivamente a uma resistência ativa, como o jovem sobrinho de Anna que morre rapidamente. E em tudo isso sempre marcando a vida a impossibilidade de viver em paz sem a verdade. (Com base no dito anterior, alguém que tenha assistido ao filme em mais de uma oportunidade e em uma melhor projeção que nós, nos aponta que quando a irmã do aviador sai do teatro onde vendeu seu cabelo, pode ver-se um cartaz indicador da obra de “Antígona”, que ali representa, detalhe não advertido por nós. O que pode querer dizer duas coisas: ou que Wajda substima o espectador, incapaz de advertir a analogia sem o correspondente anuncio; ou que Wajda pretende que o espectador compreenda que a tragédia não está somente dentro de uma sala, senão que nas ruas mesmas da Polônia. Como seja, a inclusão do cartaz teatral – que agora advertimos ao ver novamente o filme – nos parece redundante).
Estes episódios conformam a parte central do filme, que então parece diluir-se ante a irrupção de personagens desconhecidos até ali. A forçada passagem do tempo na história favorece tal descenso na curva dramática do filme.
Se tais profundezas se fazem presentes nas grandes obras literárias, não ocorre o mesmo – nem deve ocorrer – no cinema. Não obstante, esse aparente abandono da trama principal traduz o desassossego das mulheres que assumiram em suas vidas e em suas relações cotidianas esse corte abrupto.
O que virá será decisivo e, finalmente, revelador. Wajda tem o mérito de não querer fazer com seu filme um espetáculo, nem com sua história de amor cair no sentimentalismo habitual em diretores como Spilberg, Eastwood ou Cameron de Titanic.
Com suma consideração e austeridade revela os fatos centrais do filme, mediante o recurso excelente de revelar isso que se tema, se suspeita e se oculta, ao final do filme, porque isto é o que vai ficar gravado no espectador, o que e se leva primeiro ao sair do cinema ou terminar de ver o filme na comunidade de seu lar. Depois disso não há inibição para negar-se a ver o que deve ser visto. Aquilo que ainda que se queira cobrir sobre uma montanha de terra e sobre um manto cúmplice de silencio, ao fim sai à superfície, para além dos homens e dos tempos, porque sua luz brilha nas trevas.

Flávio Mateus (Videoteca Reduco - http://www.videotecareduco.blogspot.com/)


Poster eslovaco sobre o massacre de Katyn







Fotos do Massacre

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dever inelutável da hora presente: Resistir e Combater


Quando a instituição do aborto, do uso de pílula contraceptiva ou abortiva, da união antinatura entre pessoas do mesmo sexo não estão mais, por princípio, em conexão fundamental com a ordem inserida na realidade da natureza e da graça e passam a depender simplesmente do voto de uma maioria; quando se pretende arrancar, não só os crucifixos, mas o próprio Cristo dos hospitais, das repartições e das escolas, eliminando-o de toda a vida pública e de uma parte da vida privada, está consumada a Revolução Política. A presença luminosa da Igreja é velada pelo laicismo e a fumaça de uma ditadura indizível já se pode sentir.
Em face de tais circunstâncias, não resta outra alternativa aos católicos que não tremem nem coram de se apresentar como tais, senão o dever inelutável que se nos apresenta na hora presente: resistir e combater.
No entanto, urge salientar que não é a luta contra um indivíduo a que estamos propondo, nem sequer contra um partido ou facção determinada. Não é uma luta privada por bens ou postos, ou por obter algum espaço no mecanismo de reajuste do sistema.
Aprendemos com os clássicos que a democracia é a profanação da política; com o magistério autêntico da Igreja, que não se pode convalidar a aberração da soberania do povo nem o mito absurdo do sufrágio universal; e ainda, aprendemos por experiência histórica que era certo aquilo que ensinava Maurras: não é a democracia que está doente, a doença é a democracia.
A doença é o regime, e todo empenho por reconquistar a saúde da Pátria, deve começar por impugná-lo sem concessões, e combatê-lo coerentemente até as últimas conseqüências.
Mas esta luta contra a tirania democrática, contra este mando ilícito por sua ordem e por seu exercício, contra este despotismo subversivo que tudo corrói, compromete ademais – e prioritariamente – nossa fidelidade de batizados. Com efeito, é doutrina segura da Fé Católica, transmitida até hoje sem míngua nem desgaste, que os fiéis de uma nação cristã possuem o direito a desobedecer aos governantes ilegítimos; a desacatar suas propostas primeiro; a rebelar-se depois gradualmente em forma passiva e ativa, até chegar a resistência franca, física, obstinada e heróica, quando a tirania não deixa outra possibilidade mais que sua morte para que possa restituir-se a vida da nação.
Mas não se trata somente de um direito que pode ser exercido ou não segundo os casos. Sobre determinadas circunstâncias – precisamente quando as forças subversivas e sediciosas ocupam o poder e destroem o bem comum completo - a resistência ativa integral é um dever coletivo dos cristãos, que ninguém pode recusar enquanto dure o estado de agressão permanente; é uma obrigação moral da qual ninguém pode se abster, é um imperativo que reclama concreção e resposta, é uma reconquista que não perdoa escusas nem protelações.
O ensinaram os Padres e a melhor escolástica, os teólogos de nota e os sábios moralistas de todos os séculos. Existe a exigência de levantar batalha em defesa da Realeza Social de Jesus Cristo, quando ela é agredida, esbofeteada, escarnecida e traída com anuência do tirano e de seus sicários. Exigência que chega, como o entendeu esse povo hierarquizado de 1964 aos civis capazes – varões e mulheres -, aos sacerdotes insubmissos em seu ministério, àqueles que sintam náuseas de permanecer neutros em momento de tão decisivo transe, e aos guerreiros genuínos, para quem a Pátria é um Graal reluzente pela qual cabe andar de vigília em vigília até o derramamento de sangue. Por isso, o Cardeal Bellarmino falava da Santa Intolerância, e Urbano VIII absolveu do juramento de fidelidade aos soldados que o havia prestado ao Conde Hugo, ratificando assim o princípio de que a fidelidade das tropas de um país cristão se deve primeiro a Deus que aos homens, e que não têm por que prestar-se aos governantes quando eles se comportam como sacrílegos, apóstatas e ímpios consumados.
Não nos será possível esta contenda se não forjarmos em nós e em nossos camaradas e amigos, o modelo de militante que nos impõem estes tempos.
A defesa da Pátria e dos valores cristãos - católicos - inerentes a ela, não poderá ser uma ocasião para os frívolos, nem um refúgio para os cômodos, nem um ponto de reunião para os derrotados. Tampouco será campo para fugazes ativistas nem para esses falsos pregadores que crêem querer a Deus porque a ninguém os quer e menosprezam tudo cheios de soberba e de auto-suficiência estéril. Venham cerrar filas conosco os que depuseram a intriga e o interesse pessoal, o sarcasmo vazio, o personalismo soberbo e as aventuras sem direção. Venham a nossos quadros – pobres em cifras e meios, mas plenos em verdades – os que mantêm a firmeza das convicções absolutas e a coragem de sustentá-las oportuna e inoportunamente.
O militante que necessitamos não é o espectador de um espetáculo, é o antagonista de uma luta justa. Não é o covarde que, em seu gabinete ou no conforto de sua casa, acusa o erro mas nem cogita a possibilidade de lutar para expurgá-lo. Não é o que se submete à comédia da participação democrática, senão a testemunha de um drama que espera reverter com seu esforço em uma jornada de júbilo. Não é o agitador de bandeiras estridentes, senão o portador silencioso do lábaro da glória.
Não é o candidato que se prostra suplicante ante os homens, senão o homem que entende que a hierarquia se funda no trabalho, no serviço. E não será talvez, o que recorra aos degraus do êxito nas campanhas publicitárias, mas sim aquele que se abraçou à cruz, seduzido por seu esplendor e por sua graça.
O militante que necessitamos não é o que pergunta qual é o programa, assim como ocorre nos partidos políticos. Bem dizia Codreanu que o país agoniza por falta de homens integrais (completos) e não por ausência de programas. O nosso, não obstante, foi exposto por mestres mártires e personalidades eminentes do pensamento católico.
Mas seu melhor legado segue sendo as recordações vivas de seus grandes feitos.
Não nos faltam propostas, como se diz por aí com ignorância ou malicia. Não nos faltam soluções concretas para os problemas reais. Mas pedimos primeiro para nós: disciplina e trabalho, ajuda mútua e honra, confiança e sacrifício, formação e ação, oração e adoração permanente sobre todas as coisas.
O resto – como o prometido acréscimo – sobrevirá quando menos esperarmos.
O militante que necessitamos é o que sabe que quando não existe bem não existe escolha, e que entre o mal e o mal menor – que é sempre um mal – está o bem possível. O bem pendente e realizável: a Reconquista e a Restauração da soberania plena em nome de Deus e da Pátria.
Trata-se de vencer as condutas resignadas, e essa dor ingrata que é o fatalismo e a desolação. Marchar sem esperança não podemos, porque ela é nossa força. E se estiver certo Péguy que outrora lembrou que “Deus disse: a fé que eu mais quero é a esperança”, ela nos levará à fé e à caridade, que é a única trilogia que não foi capitulada...
O militante que necessitamos deve amar a Pátria como pessoa viva. Com amor de filho, como prova de gratidão pelo recebido; com amor de esposo, sustentado na fidelidade indissolúvel; e com amor de pai, que é amor de serviço e de sacrifício, de porvenir e gozo.
O militante que necessitamos há de nos encontrar. Que some sua dádiva ao nosso coro, que aproxime mãos e braços, palma ao céu, sem dar nem pedir trégua. Que traga sua insistência em não render-se. Que venha sem regresso e com o coração crispado de promessas. Que suba a bandeira até o cimo, que se aliste nas guardas sem relevo, que com o Rosário no peito e Cristo como chefe pronuncie sem temor o nome do Brasil, porque assim – o juramos – Brasil é quem vence!

Carta Pastoral Sobre a Seita Comunista - D. Geraldo de Proença Sigaud


D. Sigaud (Belo Horizonte, 26 de setembro de 1909 — 5 de setembro de 1999)


1. Socialismo e comunismo

O socialismo é condenado pelo direito natural, e não pode haver socialismo cristão
O socialismo ensina a mesma doutrina marxista que o comunismo. Tem o mesmo objetivo, a Revolução, e quer a mesma organização econômica da sociedade. É materialista, rejeita a Religião, a moral, o direito, Deus, a Igreja, os direitos da família, do indivíduo. Quer que todos os meios de produção estejam nas mãos do Estado, e igualmente toda a educação, todos os transportes, as finanças, e que o Estado seja o soberano senhor de todas as forças da nação. Deseja a supressão da diferença entre as classes sociais. Também para o socialismo, a pessoa existe para o Estado, não o Estado para a pessoa (cf. Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum, Edit. Vozes, pp. 5 e 6).
A diferença que há entre os socialistas e os comunistas é uma diferença de método. Os comunistas desejam a implantação imediata da ditadura do proletariado para realizar a Revolução. Os socialistas recorrem a meios "legais" para obter o mesmo objetivo. Recorrem às eleições, às greves legais, às agitações sem derramamento de sangue, para conseguir leis de nacionalização, de ensino laico. Vão fazendo a nação deslizar para o comunismo em geral sem convulsões violentas. O socialismo é uma rampa pela qual as nações vão resvalando para o comunismo quase sem perceberem.

2. Socialismo e seus matizes

A vantagem tática do socialismo, para os que dirigem a seita comunista, é que o socialismo pode tomar coloridos mais suaves. O comunismo é vermelho-sangue. O socialismo pode ir do rubro ao cor de rosa. O comunismo tem dificuldade de se fazer passar por cristão. O socialismo arranja modos de se dizer cristão, e assim realizar a Revolução paulatinamente e por etapas.

3. Socialismo cristão

Os fautores da Revolução realizaram esta proeza de enfeitarem o socialismo com o rótulo de cristão. Com um semblante comovido tais socialistas cristãos condenam o capitalismo como intrinsecamente mau, pior do que o comunismo. E com comoção dizem que no comunismo há muita coisa boa. Seu ódio à América do Norte é violento.
Suas simpatias pela Rússia são difíceis de esconder. Consideram o capital uma abominação quando nas mãos daquele que o amealhou com seu suor, mas o acham admirável quando nas mãos do Estado. Têm uma confiança cega no Estado, e uma desconfiança irremediável da iniciativa particular. Têm antipatia à ordem desigual e hierárquica de uma sociedade de classes, e têm prazer de se proletarizar. Mas confessam se e comungam, e se dizem católicos progressistas.
É possível um socialismo cristão? Sua Santidade o Papa Pio XI já respondeu a esta questão na Encíclica Quadragesimo Anno: "Se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda se contudo numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista" (Edit. Vozes, p. 44, n.° 119).
E se o socialismo for muito moderado? Mesmo neste caso continua incompatível com o Catolicismo. Pio XI é explicito também neste ponto. Ouçamo lo: "E se o socialismo estiver tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que não mereça nisto a mínima censura? Terá por isto renunciado à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos, convencidos de que os princípios cristãos não podem abandonar se nem jamais obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase batizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como "ação", se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de um modo completamente avesso à verdade cristã" (Encíclica Quadragesimo Anno, Edit. Vozes, p. 43, n.° 117).

Realmente, Deus estabeleceu uma ordem natural, que não é licito ao homem violar, e a esta ordem pertencem dois pontos que todo socialismo viola. São os seguintes:

a) O papel subsidiário do Estado. O Estado não existe para absorver ou substituir os indivíduos, as famílias e as associações, mas para realizar as tarefas que estes elementos não podem realizar por si mesmos. Assim João XXIII, na Encíclica Mater et Magistra: "Essa ação do Estado, que protege, estimula, coordena, supre e complementa, apóia se no "princípio de subsidiaridade" (A. A. S., XXIII, 1931, p. 203), assim formulado por Pio XI na Encíclica Quadragesimo Anno: "Permanece, contudo, firme e constante na filosofia social aquele importantíssimo princípio que é inamovível e imutável: assim como não é lícito subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com as próprias forças e indústria para confiá lo à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores poderiam conseguir, é uma injustiça ao mesmo tempo que um grave dano e perturbação da boa ordem. O fim natural da sociedade e de sua ação é coadjuvar os seus membros e não destruí-los nem absorvê los" (ibid., p. 203) (apud "Catolicismo", n.° 129, de setembro de 1961).

b) O indivíduo, as famílias, as associações têm direito de possuir bens de raiz, bens móveis e bens produtivos. O Estado não pode açambarcar estes bens para si. Os homens têm o direito e o dever de proverem às suas necessidades, e o Estado não pode se arvorar em Providência e suprimir este direito ou substituir se a este dever.
Por isto tudo, o socialismo é condenado pelo direito natural, e não pode haver socialismo cristão.

4. A Igreja primitiva foi comunista? As ordens religiosas são comunistas?

Amados Filhos, provavelmente já tereis ouvido ou lido afirmarem que a Igreja primitiva foi comunista e que as atuais Ordens Religiosas o são.
Depois do que dissemos a respeito do marxismo, compreendereis que somente um ignorante ou uma pessoa de má fé pode afirmar uma monstruosidade tal.
Mas, mesmo se abstrairmos do marxismo, nem a Igreja primitiva praticou, nem as Ordens Religiosas praticam o comunismo. Vede bem que o essencial do comunismo é a negação do direito de propriedade.
Ora, examinemos sob este aspecto a Igreja primitiva. Levadas da vontade de seguir de perto o exemplo do Divino Mestre e realizar os conselhos evangélicos, várias famílias cristãs de Jerusalém resolveram viver no voto de pobreza. Para isto venderam tudo o que tinham e entregaram o dinheiro aos Apóstolos para que com ele fosse mantida a comunidade. Notai bem: os indivíduos desta comunidade renunciavam a seus bens porque queriam. Quem não quisesse viver na pobreza, não precisava. Assim disse São Pedro a Ananias: "Conservando o campo, ele não ficava teu? E vendendo o, não dependia de ti o que farias com o dinheiro?" (At. 5, 4).
A Igreja permitia que os que quisessem viver sem possuir nada pessoalmente, o fizessem. Mas, de um lado, isto era livre; de outro, o imóvel ou o dinheiro apurado passava a ser propriedade da comunidade. Ficava pois de pé o direito de propriedade da comunidade; não era negado nem transferido ao Estado.
Para desiludir os comunistas utópicos, devemos dizer que a primeira tentativa de realizar o ideal da pobreza não foi bem sucedida. Consumidos os capitais apurados na venda dos imóveis, criou se em Jerusalém uma situação difícil, e foi preciso as outras comunidades cristãs enviarem periodicamente esmolas para Jerusalém a fim de sustentarem os irmãos que tinham renunciado a seus bens. Verificou se que o voto de pobreza só é possível junto do voto de castidade, e que o estado de pobreza evangélica não é possível quando há família, mulher e filhos. Para pessoas casadas o caminho da santidade está no trabalho e na reta administração das riquezas temporais. Mais tarde a Igreja retomou a experiência, primeiro com indivíduos isolados, os anacoretas, depois com pequenas comunidades de eremitas, os cenobitas; só depois que raiou a liberdade para o Cristianismo é que dois grandes Santos organizaram a vida de pobreza evangélica aliada à obediência e à castidade: no Oriente, São Basílio; no Ocidente, São Bento. Mas, se o monge renuncia a toda propriedade pessoal, o mosteiro passa a ser o proprietário. Verifica se o que se dá muitas vezes na família: se os indivíduos não são donos, a família é a proprietária.
Vejamos agora o valor que tem a afirmação de que as Ordens Religiosas são comunistas ou socialistas.
Ninguém afirmará que as doutrinas filosóficas, sociológicas, teológicas do comunismo se encontram realizadas nas Ordens Religiosas. Tal afirmação é tão absurda, que ninguém a tomaria a sério. Restaria então o tipo de vida econômica das Ordens Religiosas. Perguntamos: o tipo de vida econômica que o comunismo pretende implantar é aquele que as Ordens Religiosas realizam há tantos séculos? Para respondermos com clareza a este absurdo, que no entanto se repete com enfadonha monotonia, vamos analisar um pouco mais de perto o tipo de vida econômica das Ordens Mendicantes. É sabido que são elas que realizam o ideal de pobreza evangélica mais absoluto entre as comunidades religiosas. Verificado que nelas não há sombra do tipo econômico comunista, fica provado que as outras Ordens e Congregações, em que o tipo de pobreza é mais suave, a fortiori não podem ser tachadas de comunistas.
Nas Ordens Mendicantes mais rigorosas, não só os Religiosos individualmente nada possuem de próprio, mas nem mesmo a Ordem, as Províncias ou conventos são os titulares das propriedades. Em lugar deles a Santa Sé ou a Diocese são os proprietários formais. A administração dos bens destinados à Ordem, à Província ou ao convento é realizada por pessoas nomeadas pela Santa Sé ou pela Diocese. Mas, se a propriedade não é nominalmente da Ordem, etc., os frutos do patrimônio que existir, ou as esmolas dadas pelos fiéis, se aplicam formalmente à manutenção daquele convento e daquela comunidade para que são destinados. Assim, os Religiosos não têm os ônus da propriedade e de sua administração, caridosamente suportados pela Autoridade Eclesiástica, mas têm as rendas necessárias para se manterem. É a realização da pobreza de Cristo e da fé na Providência. É o "nihil habentes, et omnia possidentes" de São Paulo (2 Cor. 6, 10 ) . Assim, as Ordens Mendicantes são a mais formal refutação do comunismo. Porque:

a) A renúncia às propriedades é uma afirmação clara da existência do direito de propriedade, pois ninguém renuncia seriamente ao que não existe.

b) Cada comunidade e cada Religioso tem o direito de viver dos frutos do patrimônio e das esmolas que tocam ao convento, e que são administrados pela Autoridade Eclesiástica em favor da comunidade, e não arbitrariamente.

c) O Religioso renuncia ao direito de propriedade voluntariamente. O comunismo nega este direito e confisca as propriedades violentamente.

d) O Religioso abraça a pobreza voluntária para melhor seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo e santificar melhor sua alma na esperança da vida eterna. O comunismo diz que destrói a propriedade particular para proporcionar a todos os homens a maior soma de prazeres nesta terra, uma vez que não existe a vida eterna.

e) Na realidade, a pobreza voluntária dos Religiosos os leva a maior liberdade no serviço de Deus. O comunismo, prometendo a maior soma de prazeres, realmente tem por fim escravizar os homens, e depois, por meio da fome, obrigá los à total apostasia de Deus.

f) A pobreza voluntária das Ordens Religiosas serve a Deus. O comunismo serve a Satanás.

Concluindo, devemos pois dizer que a afirmação de que as Ordens Religiosas realizam o tipo econômico do comunismo é uma verdadeira blasfêmia.
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* Carta Pastoral Sobre a Seita Comunista – seus erros, sua ação revolucionária e os deveres dos católicos na hora presente. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D. Publicada em 6 de janeiro de 1962 na cidade de Diamantina, MG. 2º. Edição, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1963. Cap. IV, pp. 94-1014.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Vida de heroísmo

"Nossa covardia imagina que os remédios que não incomodam, os paliativos que se adaptam á natureza, bastam para curar os nossos males. A observação imparcial, porém, contradiz estas esperanças interessadas, e, em toda a sociedade, as ações, que julgamos exigirem apenas uma dose comum de moralidade e de dedicação não são praticadas pela grande maioria dos indivíduos, senão quando eles têm diante de si impulsores e guias capazes de levarem até ao heroísmo a perfeita observância do princípio integral.
Ora os que voluntariamente guardam a castidade perpétua desempenham este papel magnífico de campeões e de chefes, e por isso mesmo são também eles, como os pais de uma numerosa prole, credores do belo título de : pais da pátria.
Quando os seus serviços e as suas virtudes chegam a seu ponto culminante, não são simplesmente pais da pátria, mas os pais da humanidade inteira, que, pelo correr dos anos, vive de seus exemplos, de suas sublimes lições.
É verdadeiramente estranho como nossos contemporâneos, que não regateiam encômios, quando se trata de celebrar os grandes sábios, os grandes artistas, liguem tão pouca importância aos serviços, muito mais relevantes, prestados por esses admiráveis batalhadores da vida moral, a que chamamos os santos.
E contudo é a energia e força desses heróis que amparam nossa fraqueza, e que destarte nos fazem participantes da abundância da vida espiritual que delles transborda. Seus exemplos nos mostram, a par do nosso dever, a extensão do nosso poder e, após esses campeões, esses conquistadores da liberdade espiritual, caminha a imensa multidão dos homens, aliás não tão libertados e completamente forros como eles, mas ainda assim, não tão servis e menos escravos do egoísmo desses maus apetites.
Acautelemo-nos de, leviamente, taxar de excentricidade e de exageração essas práticas e atitudes que não são senão uma bela reação vigorosa e necessária contra os excessos, mui nocivos, de uma sensualidade grosseira, para com a qual, contudo, somos pródigos dos tesouros da nossa indulgência.
Esses homens combateram tão duramente contra as exigências, aparentemente, mui legítimas do corpo e do espírito, porque sabiam que nós lutamos tão pouco e tão mal contra os piores excessos; e assim, graças a eles, nos é dado, a nós, beneficiados por essa vigilância, evitar os escolhos que se ocultam nas proximidades de nossas tendências normais".

(Pe. Bureau: A indisciplina dos costumes)