sábado, 6 de março de 2010

Katyn - Resistente Polônia


Katyn
Diretor: Andrzej Wajda - 2007


Resistente Polônia

A vida do homem transcorre entre a aceitação e a resistência. São dois movimentos da alma que implicam a forma de viver uma identidade e um destino.
Aceitar a verdade é resistir à mentira e vice-versa. Por isso há duas formas de resistência: se pode resistir heroicamente ao mal, e pode se resistir obstinadamente ao Bem. Por isso a só menção da palavra “Resistência” não nos diz nada se não se diz a que se resiste.
Hoje que se lhe da um uso político instrumental orientado pela mentira ou meias verdades, um filme como Katyn vêm deixar bem estabelecido que a resistência da Polônia representa não só uma luta marcada em determinadas circunstâncias históricas, senão que sua resistência segue sendo a da Cristandade ante a barbárie do ateísmo comunista.
Praticamente desde que abraçou a Religião Católica em 966, a Polônia vêm resistindo com determinação para defender sua religião e, com ela, sua mesma existência como nação, atada a sua identidade católica. Terra localizada como uma muralha ante a maré da impiedade que vêm do oriente, a Polônia, que tem dado mártires que fertilizaram sua terra com a devoção a Maria e a fidelidade ao Papado, jamais – até o ultimo confronto mundial – havia entrado em guerra senão para a defesa da religião (Cfr. Polonia en la Cristiandad, Una mirada sobre mil años de historia, Walerian Meysztowicz, Ediciones del Águila Coronada, 1987).
Mostrar que não só estava em jogo a política na Segunda Guerra, senão principalmente outra coisa, é um dos maiores méritos deste filme. É mostrar a alma de um povo manifestando-se na lealdade ao seu próprio ser, esse que só pode perder-se caso perda a verdadeira identidade católica, cuja resistência acontece hoje ante o avassalador modernismo instalado oficialmente na Igreja com o Vaticano II.
A estatuária católica na vida dos polacos, cobra neste caso maior relevância e sentido simbólico, e não aparece já como simples atavio ou comentário a margem (como em algum outro filme de Wajda), posto que, se o cinema deste autor não costuma ter uma clara cosmovisão católica da vida, a magnitude e historicidade do que conta, o levam a um terreno onde necessariamente o transcendente tende a ser mais explicito.
Vejamos mais detalhadamente o que é e o que não é Katyn, e sua forma de ser conseqüente com o supradito.
Já conhecida a história que narra o filme, os fatos históricos que nunca se quiseram admitir ou se impediram contar e mostrar cabe perguntar-se, se Katyn é um filme “historicista” ou “contista”, isto é, têm apenas o objetivo de contar um acontecimento histórico e ao fazê-lo deixa que este propósito submirja a realização artística na mediocridade? Descuida o diretor a beleza do que tem nas mãos para fazer um filme panfletário ou propagandista? O fundo se alça em detrimento da forma? Em definitivo, o mais importante é passar uma “mensagem”? A resposta a tudo isso é: Não, tudo o contrário. Porque se é evidente o desejo e a necessidade trazer à luz os fatos históricos, o filme não se limita a isso. Wajda, às vezes incorreu em seu cinema em um excesso de “expressão” em detrimento da narração onde talvez o traiu aquilo que sintetizava Bresson assim: “Idéia vácua de “cinema de arte”, de “filmes de arte”. Filmes de arte: as mais carentes de arte” (claro que se Wajda caiu nisso por excesso, precisamente Bresson caiu mais ostensivamente nesse erro por defeito). Mas Wajda, repetimos, se esquiva destes deslizes em Katyn, fundamentalmente por três motivos:


Os Arquétipos:

O filme conta um fato histórico, mas dentre dele a história de alguns personagens que, em sendo indivíduos em tais circunstâncias, são também arquétipos (dai que possuem apenas nomes, não sobrenomes) de quem sofrem imersos em um drama que os colocam a prova na luta por conservar uma identidade, uma forma de vida, uma religião, uma pátria, uma família. Wajda conhece bem aquilo que mostra, a dinâmica das emoções de seus personagens, a verdade que se reflete melhor que nas estatísticas nos rostos, na angustia, na esperança, nos “sofrimentos individuais”, como ele mesmo disse.
Wajda apresenta com intensidade e força, sem cair em golpes baixos nem na atitude “vitimista” que conhecida em quase tido cinema político, o drama da pátria polaca através de seus homens e mulheres, dos oficiais e intelectuais, das esposas e mães, filhas e irmãs, transtornados pela dupla invasão alemã e soviética e impotentes ante a mesma. Os soldados, preparados para lutar, devem, no entanto, aprender algo mais difícil, ao encontrarem-se prisioneiros: a resistência passiva, a luta interior. As mulheres, habituais companheiras daqueles, devem resistir na solidão, fustigadas pela lembrança e a incerteza. O vínculo intangível do amor, não o ódio, é o que, posto a prova, sustenta os personagens em sua luta cotidiana. A ausência dos homens é também a ausência da pátria, o sofrimento das mulheres é o sofrimento da pátria.
Dessa pátria que finalmente se decide no gesto final dos homens ante a morte.


O Religioso:

O filme supera a literalidade dos fatos e da forma de mostrá-los porque o diretor lhe outorga um valor que o transcende. Esse valor é o do religioso, e seu método é o símbolo.
Desde o começo advertimos a identificação entre Polônia e o catolicismo. A primeira coisa que observamos ao chegar a mulher que busca seu esposo entre os feridos, ali por onde marchou o exército vermelho, é a ausência de Cristo em um crucifixo quebrado. Quase de imediato o descobrimos entre os mortos e feridos, assistidos por um sacerdote. Se Jesus Cristo é a primeira vitima é porque o ódio comunista se dirige em primeiro lugar a Ele (“Deus é o inimigo pessoal da sociedade comunista” dizia Lênin em uma carta a Gorki). E se o padre lhe da a extrema-unção como aos outros não é porque Nosso Senhor a necessite, senão porque Nele estão representados todos aqueles a quem não poderá assistir, aqueles desconhecidos “pobres Cristos” que caíram sobre o furor da besta desatada.
A presença da oração, dos cânticos, do rosário entre os oficiais prisioneiros confinados em um antigo monastério ortodoxo, distingue uma elite de homens valorosos, patriotas e insubmissos que por isso mesmo, Stalin decidiu os aniquilar.
Memorável e emotiva a cena final, felicidade e saúde das almas que, ainda que em meio ao horror e ao medo, se entregam a vontade de Deus.
O sentido sacrifical conferido a estes homens se vê mais claramente no capitão Andrzej, que leva acima do uniforme um pulôver de lã branca que não lhe pertence, como o cordeiro que se entrega mansamente e derrama seu sangue pela Polônia (recorde-se: poderia ter escapado quando sua esposa o foi buscar, e decidiu ficar).
Mas também onde está Cristo há um Judas, neste caso o amigo que na prisão lhe dá seu pulôver. Este é o único que sobreviverá ao grupo, somando-se ao exército de ocupação; finalmente, presa do remorso, acabará como o primeiro traidor.



O trágico:

Também a vinculação com a tragédia dota a história e aos personagens de um conteúdo universal e perene. O substrato mítico conferido pelo trágico evita que o filme caia no historicismo.
As duas irmãs do aviador que jaz nas fossas de Katyn, Agnieszka e Irene, revivem o terrível conflito das irmãs Antígona e Ismene da tragédia de Eurípedes. As duas representam duas formas de afrontar a vida cotidiana durante a ocupação soviética. Agnieszka não pode suportar viver na mentira, nem que seu irmão não tenha um tumulo. Poderia dizer como Antígona, sobre o invasor: “Não lhe é possível separar-me dos meus”, ou, já definitivamente julgada por acometer seu plano: “Eu não lhe enterrarei. Belo será morrer fazendo-o”. Sua irmã Irene, em troca, resignada como Ismene (“Não é conveniente perseguir desde o principio o impossível”), mostra a impotência de quem deseja e não pode seguir vivendo em uma situação incomoda e onde a prudência a imprudência, a frontalidade e o dissimulo, a verdade e a mentira exigem distintas decisões, onde possui papel importante a idade e o temperamento. Por isso os mais jovens, com sua natural impaciência, não podem conter-se e se lançam impulsivamente a uma resistência ativa, como o jovem sobrinho de Anna que morre rapidamente. E em tudo isso sempre marcando a vida a impossibilidade de viver em paz sem a verdade. (Com base no dito anterior, alguém que tenha assistido ao filme em mais de uma oportunidade e em uma melhor projeção que nós, nos aponta que quando a irmã do aviador sai do teatro onde vendeu seu cabelo, pode ver-se um cartaz indicador da obra de “Antígona”, que ali representa, detalhe não advertido por nós. O que pode querer dizer duas coisas: ou que Wajda substima o espectador, incapaz de advertir a analogia sem o correspondente anuncio; ou que Wajda pretende que o espectador compreenda que a tragédia não está somente dentro de uma sala, senão que nas ruas mesmas da Polônia. Como seja, a inclusão do cartaz teatral – que agora advertimos ao ver novamente o filme – nos parece redundante).
Estes episódios conformam a parte central do filme, que então parece diluir-se ante a irrupção de personagens desconhecidos até ali. A forçada passagem do tempo na história favorece tal descenso na curva dramática do filme.
Se tais profundezas se fazem presentes nas grandes obras literárias, não ocorre o mesmo – nem deve ocorrer – no cinema. Não obstante, esse aparente abandono da trama principal traduz o desassossego das mulheres que assumiram em suas vidas e em suas relações cotidianas esse corte abrupto.
O que virá será decisivo e, finalmente, revelador. Wajda tem o mérito de não querer fazer com seu filme um espetáculo, nem com sua história de amor cair no sentimentalismo habitual em diretores como Spilberg, Eastwood ou Cameron de Titanic.
Com suma consideração e austeridade revela os fatos centrais do filme, mediante o recurso excelente de revelar isso que se tema, se suspeita e se oculta, ao final do filme, porque isto é o que vai ficar gravado no espectador, o que e se leva primeiro ao sair do cinema ou terminar de ver o filme na comunidade de seu lar. Depois disso não há inibição para negar-se a ver o que deve ser visto. Aquilo que ainda que se queira cobrir sobre uma montanha de terra e sobre um manto cúmplice de silencio, ao fim sai à superfície, para além dos homens e dos tempos, porque sua luz brilha nas trevas.

Flávio Mateus (Videoteca Reduco - http://www.videotecareduco.blogspot.com/)


Poster eslovaco sobre o massacre de Katyn







Fotos do Massacre

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dever inelutável da hora presente: Resistir e Combater


Quando a instituição do aborto, do uso de pílula contraceptiva ou abortiva, da união antinatura entre pessoas do mesmo sexo não estão mais, por princípio, em conexão fundamental com a ordem inserida na realidade da natureza e da graça e passam a depender simplesmente do voto de uma maioria; quando se pretende arrancar, não só os crucifixos, mas o próprio Cristo dos hospitais, das repartições e das escolas, eliminando-o de toda a vida pública e de uma parte da vida privada, está consumada a Revolução Política. A presença luminosa da Igreja é velada pelo laicismo e a fumaça de uma ditadura indizível já se pode sentir.
Em face de tais circunstâncias, não resta outra alternativa aos católicos que não tremem nem coram de se apresentar como tais, senão o dever inelutável que se nos apresenta na hora presente: resistir e combater.
No entanto, urge salientar que não é a luta contra um indivíduo a que estamos propondo, nem sequer contra um partido ou facção determinada. Não é uma luta privada por bens ou postos, ou por obter algum espaço no mecanismo de reajuste do sistema.
Aprendemos com os clássicos que a democracia é a profanação da política; com o magistério autêntico da Igreja, que não se pode convalidar a aberração da soberania do povo nem o mito absurdo do sufrágio universal; e ainda, aprendemos por experiência histórica que era certo aquilo que ensinava Maurras: não é a democracia que está doente, a doença é a democracia.
A doença é o regime, e todo empenho por reconquistar a saúde da Pátria, deve começar por impugná-lo sem concessões, e combatê-lo coerentemente até as últimas conseqüências.
Mas esta luta contra a tirania democrática, contra este mando ilícito por sua ordem e por seu exercício, contra este despotismo subversivo que tudo corrói, compromete ademais – e prioritariamente – nossa fidelidade de batizados. Com efeito, é doutrina segura da Fé Católica, transmitida até hoje sem míngua nem desgaste, que os fiéis de uma nação cristã possuem o direito a desobedecer aos governantes ilegítimos; a desacatar suas propostas primeiro; a rebelar-se depois gradualmente em forma passiva e ativa, até chegar a resistência franca, física, obstinada e heróica, quando a tirania não deixa outra possibilidade mais que sua morte para que possa restituir-se a vida da nação.
Mas não se trata somente de um direito que pode ser exercido ou não segundo os casos. Sobre determinadas circunstâncias – precisamente quando as forças subversivas e sediciosas ocupam o poder e destroem o bem comum completo - a resistência ativa integral é um dever coletivo dos cristãos, que ninguém pode recusar enquanto dure o estado de agressão permanente; é uma obrigação moral da qual ninguém pode se abster, é um imperativo que reclama concreção e resposta, é uma reconquista que não perdoa escusas nem protelações.
O ensinaram os Padres e a melhor escolástica, os teólogos de nota e os sábios moralistas de todos os séculos. Existe a exigência de levantar batalha em defesa da Realeza Social de Jesus Cristo, quando ela é agredida, esbofeteada, escarnecida e traída com anuência do tirano e de seus sicários. Exigência que chega, como o entendeu esse povo hierarquizado de 1964 aos civis capazes – varões e mulheres -, aos sacerdotes insubmissos em seu ministério, àqueles que sintam náuseas de permanecer neutros em momento de tão decisivo transe, e aos guerreiros genuínos, para quem a Pátria é um Graal reluzente pela qual cabe andar de vigília em vigília até o derramamento de sangue. Por isso, o Cardeal Bellarmino falava da Santa Intolerância, e Urbano VIII absolveu do juramento de fidelidade aos soldados que o havia prestado ao Conde Hugo, ratificando assim o princípio de que a fidelidade das tropas de um país cristão se deve primeiro a Deus que aos homens, e que não têm por que prestar-se aos governantes quando eles se comportam como sacrílegos, apóstatas e ímpios consumados.
Não nos será possível esta contenda se não forjarmos em nós e em nossos camaradas e amigos, o modelo de militante que nos impõem estes tempos.
A defesa da Pátria e dos valores cristãos - católicos - inerentes a ela, não poderá ser uma ocasião para os frívolos, nem um refúgio para os cômodos, nem um ponto de reunião para os derrotados. Tampouco será campo para fugazes ativistas nem para esses falsos pregadores que crêem querer a Deus porque a ninguém os quer e menosprezam tudo cheios de soberba e de auto-suficiência estéril. Venham cerrar filas conosco os que depuseram a intriga e o interesse pessoal, o sarcasmo vazio, o personalismo soberbo e as aventuras sem direção. Venham a nossos quadros – pobres em cifras e meios, mas plenos em verdades – os que mantêm a firmeza das convicções absolutas e a coragem de sustentá-las oportuna e inoportunamente.
O militante que necessitamos não é o espectador de um espetáculo, é o antagonista de uma luta justa. Não é o covarde que, em seu gabinete ou no conforto de sua casa, acusa o erro mas nem cogita a possibilidade de lutar para expurgá-lo. Não é o que se submete à comédia da participação democrática, senão a testemunha de um drama que espera reverter com seu esforço em uma jornada de júbilo. Não é o agitador de bandeiras estridentes, senão o portador silencioso do lábaro da glória.
Não é o candidato que se prostra suplicante ante os homens, senão o homem que entende que a hierarquia se funda no trabalho, no serviço. E não será talvez, o que recorra aos degraus do êxito nas campanhas publicitárias, mas sim aquele que se abraçou à cruz, seduzido por seu esplendor e por sua graça.
O militante que necessitamos não é o que pergunta qual é o programa, assim como ocorre nos partidos políticos. Bem dizia Codreanu que o país agoniza por falta de homens integrais (completos) e não por ausência de programas. O nosso, não obstante, foi exposto por mestres mártires e personalidades eminentes do pensamento católico.
Mas seu melhor legado segue sendo as recordações vivas de seus grandes feitos.
Não nos faltam propostas, como se diz por aí com ignorância ou malicia. Não nos faltam soluções concretas para os problemas reais. Mas pedimos primeiro para nós: disciplina e trabalho, ajuda mútua e honra, confiança e sacrifício, formação e ação, oração e adoração permanente sobre todas as coisas.
O resto – como o prometido acréscimo – sobrevirá quando menos esperarmos.
O militante que necessitamos é o que sabe que quando não existe bem não existe escolha, e que entre o mal e o mal menor – que é sempre um mal – está o bem possível. O bem pendente e realizável: a Reconquista e a Restauração da soberania plena em nome de Deus e da Pátria.
Trata-se de vencer as condutas resignadas, e essa dor ingrata que é o fatalismo e a desolação. Marchar sem esperança não podemos, porque ela é nossa força. E se estiver certo Péguy que outrora lembrou que “Deus disse: a fé que eu mais quero é a esperança”, ela nos levará à fé e à caridade, que é a única trilogia que não foi capitulada...
O militante que necessitamos deve amar a Pátria como pessoa viva. Com amor de filho, como prova de gratidão pelo recebido; com amor de esposo, sustentado na fidelidade indissolúvel; e com amor de pai, que é amor de serviço e de sacrifício, de porvenir e gozo.
O militante que necessitamos há de nos encontrar. Que some sua dádiva ao nosso coro, que aproxime mãos e braços, palma ao céu, sem dar nem pedir trégua. Que traga sua insistência em não render-se. Que venha sem regresso e com o coração crispado de promessas. Que suba a bandeira até o cimo, que se aliste nas guardas sem relevo, que com o Rosário no peito e Cristo como chefe pronuncie sem temor o nome do Brasil, porque assim – o juramos – Brasil é quem vence!

Carta Pastoral Sobre a Seita Comunista - D. Geraldo de Proença Sigaud


D. Sigaud (Belo Horizonte, 26 de setembro de 1909 — 5 de setembro de 1999)


1. Socialismo e comunismo

O socialismo é condenado pelo direito natural, e não pode haver socialismo cristão
O socialismo ensina a mesma doutrina marxista que o comunismo. Tem o mesmo objetivo, a Revolução, e quer a mesma organização econômica da sociedade. É materialista, rejeita a Religião, a moral, o direito, Deus, a Igreja, os direitos da família, do indivíduo. Quer que todos os meios de produção estejam nas mãos do Estado, e igualmente toda a educação, todos os transportes, as finanças, e que o Estado seja o soberano senhor de todas as forças da nação. Deseja a supressão da diferença entre as classes sociais. Também para o socialismo, a pessoa existe para o Estado, não o Estado para a pessoa (cf. Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum, Edit. Vozes, pp. 5 e 6).
A diferença que há entre os socialistas e os comunistas é uma diferença de método. Os comunistas desejam a implantação imediata da ditadura do proletariado para realizar a Revolução. Os socialistas recorrem a meios "legais" para obter o mesmo objetivo. Recorrem às eleições, às greves legais, às agitações sem derramamento de sangue, para conseguir leis de nacionalização, de ensino laico. Vão fazendo a nação deslizar para o comunismo em geral sem convulsões violentas. O socialismo é uma rampa pela qual as nações vão resvalando para o comunismo quase sem perceberem.

2. Socialismo e seus matizes

A vantagem tática do socialismo, para os que dirigem a seita comunista, é que o socialismo pode tomar coloridos mais suaves. O comunismo é vermelho-sangue. O socialismo pode ir do rubro ao cor de rosa. O comunismo tem dificuldade de se fazer passar por cristão. O socialismo arranja modos de se dizer cristão, e assim realizar a Revolução paulatinamente e por etapas.

3. Socialismo cristão

Os fautores da Revolução realizaram esta proeza de enfeitarem o socialismo com o rótulo de cristão. Com um semblante comovido tais socialistas cristãos condenam o capitalismo como intrinsecamente mau, pior do que o comunismo. E com comoção dizem que no comunismo há muita coisa boa. Seu ódio à América do Norte é violento.
Suas simpatias pela Rússia são difíceis de esconder. Consideram o capital uma abominação quando nas mãos daquele que o amealhou com seu suor, mas o acham admirável quando nas mãos do Estado. Têm uma confiança cega no Estado, e uma desconfiança irremediável da iniciativa particular. Têm antipatia à ordem desigual e hierárquica de uma sociedade de classes, e têm prazer de se proletarizar. Mas confessam se e comungam, e se dizem católicos progressistas.
É possível um socialismo cristão? Sua Santidade o Papa Pio XI já respondeu a esta questão na Encíclica Quadragesimo Anno: "Se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda se contudo numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista" (Edit. Vozes, p. 44, n.° 119).
E se o socialismo for muito moderado? Mesmo neste caso continua incompatível com o Catolicismo. Pio XI é explicito também neste ponto. Ouçamo lo: "E se o socialismo estiver tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que não mereça nisto a mínima censura? Terá por isto renunciado à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos, convencidos de que os princípios cristãos não podem abandonar se nem jamais obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase batizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como "ação", se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de um modo completamente avesso à verdade cristã" (Encíclica Quadragesimo Anno, Edit. Vozes, p. 43, n.° 117).

Realmente, Deus estabeleceu uma ordem natural, que não é licito ao homem violar, e a esta ordem pertencem dois pontos que todo socialismo viola. São os seguintes:

a) O papel subsidiário do Estado. O Estado não existe para absorver ou substituir os indivíduos, as famílias e as associações, mas para realizar as tarefas que estes elementos não podem realizar por si mesmos. Assim João XXIII, na Encíclica Mater et Magistra: "Essa ação do Estado, que protege, estimula, coordena, supre e complementa, apóia se no "princípio de subsidiaridade" (A. A. S., XXIII, 1931, p. 203), assim formulado por Pio XI na Encíclica Quadragesimo Anno: "Permanece, contudo, firme e constante na filosofia social aquele importantíssimo princípio que é inamovível e imutável: assim como não é lícito subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com as próprias forças e indústria para confiá lo à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores poderiam conseguir, é uma injustiça ao mesmo tempo que um grave dano e perturbação da boa ordem. O fim natural da sociedade e de sua ação é coadjuvar os seus membros e não destruí-los nem absorvê los" (ibid., p. 203) (apud "Catolicismo", n.° 129, de setembro de 1961).

b) O indivíduo, as famílias, as associações têm direito de possuir bens de raiz, bens móveis e bens produtivos. O Estado não pode açambarcar estes bens para si. Os homens têm o direito e o dever de proverem às suas necessidades, e o Estado não pode se arvorar em Providência e suprimir este direito ou substituir se a este dever.
Por isto tudo, o socialismo é condenado pelo direito natural, e não pode haver socialismo cristão.

4. A Igreja primitiva foi comunista? As ordens religiosas são comunistas?

Amados Filhos, provavelmente já tereis ouvido ou lido afirmarem que a Igreja primitiva foi comunista e que as atuais Ordens Religiosas o são.
Depois do que dissemos a respeito do marxismo, compreendereis que somente um ignorante ou uma pessoa de má fé pode afirmar uma monstruosidade tal.
Mas, mesmo se abstrairmos do marxismo, nem a Igreja primitiva praticou, nem as Ordens Religiosas praticam o comunismo. Vede bem que o essencial do comunismo é a negação do direito de propriedade.
Ora, examinemos sob este aspecto a Igreja primitiva. Levadas da vontade de seguir de perto o exemplo do Divino Mestre e realizar os conselhos evangélicos, várias famílias cristãs de Jerusalém resolveram viver no voto de pobreza. Para isto venderam tudo o que tinham e entregaram o dinheiro aos Apóstolos para que com ele fosse mantida a comunidade. Notai bem: os indivíduos desta comunidade renunciavam a seus bens porque queriam. Quem não quisesse viver na pobreza, não precisava. Assim disse São Pedro a Ananias: "Conservando o campo, ele não ficava teu? E vendendo o, não dependia de ti o que farias com o dinheiro?" (At. 5, 4).
A Igreja permitia que os que quisessem viver sem possuir nada pessoalmente, o fizessem. Mas, de um lado, isto era livre; de outro, o imóvel ou o dinheiro apurado passava a ser propriedade da comunidade. Ficava pois de pé o direito de propriedade da comunidade; não era negado nem transferido ao Estado.
Para desiludir os comunistas utópicos, devemos dizer que a primeira tentativa de realizar o ideal da pobreza não foi bem sucedida. Consumidos os capitais apurados na venda dos imóveis, criou se em Jerusalém uma situação difícil, e foi preciso as outras comunidades cristãs enviarem periodicamente esmolas para Jerusalém a fim de sustentarem os irmãos que tinham renunciado a seus bens. Verificou se que o voto de pobreza só é possível junto do voto de castidade, e que o estado de pobreza evangélica não é possível quando há família, mulher e filhos. Para pessoas casadas o caminho da santidade está no trabalho e na reta administração das riquezas temporais. Mais tarde a Igreja retomou a experiência, primeiro com indivíduos isolados, os anacoretas, depois com pequenas comunidades de eremitas, os cenobitas; só depois que raiou a liberdade para o Cristianismo é que dois grandes Santos organizaram a vida de pobreza evangélica aliada à obediência e à castidade: no Oriente, São Basílio; no Ocidente, São Bento. Mas, se o monge renuncia a toda propriedade pessoal, o mosteiro passa a ser o proprietário. Verifica se o que se dá muitas vezes na família: se os indivíduos não são donos, a família é a proprietária.
Vejamos agora o valor que tem a afirmação de que as Ordens Religiosas são comunistas ou socialistas.
Ninguém afirmará que as doutrinas filosóficas, sociológicas, teológicas do comunismo se encontram realizadas nas Ordens Religiosas. Tal afirmação é tão absurda, que ninguém a tomaria a sério. Restaria então o tipo de vida econômica das Ordens Religiosas. Perguntamos: o tipo de vida econômica que o comunismo pretende implantar é aquele que as Ordens Religiosas realizam há tantos séculos? Para respondermos com clareza a este absurdo, que no entanto se repete com enfadonha monotonia, vamos analisar um pouco mais de perto o tipo de vida econômica das Ordens Mendicantes. É sabido que são elas que realizam o ideal de pobreza evangélica mais absoluto entre as comunidades religiosas. Verificado que nelas não há sombra do tipo econômico comunista, fica provado que as outras Ordens e Congregações, em que o tipo de pobreza é mais suave, a fortiori não podem ser tachadas de comunistas.
Nas Ordens Mendicantes mais rigorosas, não só os Religiosos individualmente nada possuem de próprio, mas nem mesmo a Ordem, as Províncias ou conventos são os titulares das propriedades. Em lugar deles a Santa Sé ou a Diocese são os proprietários formais. A administração dos bens destinados à Ordem, à Província ou ao convento é realizada por pessoas nomeadas pela Santa Sé ou pela Diocese. Mas, se a propriedade não é nominalmente da Ordem, etc., os frutos do patrimônio que existir, ou as esmolas dadas pelos fiéis, se aplicam formalmente à manutenção daquele convento e daquela comunidade para que são destinados. Assim, os Religiosos não têm os ônus da propriedade e de sua administração, caridosamente suportados pela Autoridade Eclesiástica, mas têm as rendas necessárias para se manterem. É a realização da pobreza de Cristo e da fé na Providência. É o "nihil habentes, et omnia possidentes" de São Paulo (2 Cor. 6, 10 ) . Assim, as Ordens Mendicantes são a mais formal refutação do comunismo. Porque:

a) A renúncia às propriedades é uma afirmação clara da existência do direito de propriedade, pois ninguém renuncia seriamente ao que não existe.

b) Cada comunidade e cada Religioso tem o direito de viver dos frutos do patrimônio e das esmolas que tocam ao convento, e que são administrados pela Autoridade Eclesiástica em favor da comunidade, e não arbitrariamente.

c) O Religioso renuncia ao direito de propriedade voluntariamente. O comunismo nega este direito e confisca as propriedades violentamente.

d) O Religioso abraça a pobreza voluntária para melhor seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo e santificar melhor sua alma na esperança da vida eterna. O comunismo diz que destrói a propriedade particular para proporcionar a todos os homens a maior soma de prazeres nesta terra, uma vez que não existe a vida eterna.

e) Na realidade, a pobreza voluntária dos Religiosos os leva a maior liberdade no serviço de Deus. O comunismo, prometendo a maior soma de prazeres, realmente tem por fim escravizar os homens, e depois, por meio da fome, obrigá los à total apostasia de Deus.

f) A pobreza voluntária das Ordens Religiosas serve a Deus. O comunismo serve a Satanás.

Concluindo, devemos pois dizer que a afirmação de que as Ordens Religiosas realizam o tipo econômico do comunismo é uma verdadeira blasfêmia.
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* Carta Pastoral Sobre a Seita Comunista – seus erros, sua ação revolucionária e os deveres dos católicos na hora presente. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D. Publicada em 6 de janeiro de 1962 na cidade de Diamantina, MG. 2º. Edição, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1963. Cap. IV, pp. 94-1014.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Vida de heroísmo

"Nossa covardia imagina que os remédios que não incomodam, os paliativos que se adaptam á natureza, bastam para curar os nossos males. A observação imparcial, porém, contradiz estas esperanças interessadas, e, em toda a sociedade, as ações, que julgamos exigirem apenas uma dose comum de moralidade e de dedicação não são praticadas pela grande maioria dos indivíduos, senão quando eles têm diante de si impulsores e guias capazes de levarem até ao heroísmo a perfeita observância do princípio integral.
Ora os que voluntariamente guardam a castidade perpétua desempenham este papel magnífico de campeões e de chefes, e por isso mesmo são também eles, como os pais de uma numerosa prole, credores do belo título de : pais da pátria.
Quando os seus serviços e as suas virtudes chegam a seu ponto culminante, não são simplesmente pais da pátria, mas os pais da humanidade inteira, que, pelo correr dos anos, vive de seus exemplos, de suas sublimes lições.
É verdadeiramente estranho como nossos contemporâneos, que não regateiam encômios, quando se trata de celebrar os grandes sábios, os grandes artistas, liguem tão pouca importância aos serviços, muito mais relevantes, prestados por esses admiráveis batalhadores da vida moral, a que chamamos os santos.
E contudo é a energia e força desses heróis que amparam nossa fraqueza, e que destarte nos fazem participantes da abundância da vida espiritual que delles transborda. Seus exemplos nos mostram, a par do nosso dever, a extensão do nosso poder e, após esses campeões, esses conquistadores da liberdade espiritual, caminha a imensa multidão dos homens, aliás não tão libertados e completamente forros como eles, mas ainda assim, não tão servis e menos escravos do egoísmo desses maus apetites.
Acautelemo-nos de, leviamente, taxar de excentricidade e de exageração essas práticas e atitudes que não são senão uma bela reação vigorosa e necessária contra os excessos, mui nocivos, de uma sensualidade grosseira, para com a qual, contudo, somos pródigos dos tesouros da nossa indulgência.
Esses homens combateram tão duramente contra as exigências, aparentemente, mui legítimas do corpo e do espírito, porque sabiam que nós lutamos tão pouco e tão mal contra os piores excessos; e assim, graças a eles, nos é dado, a nós, beneficiados por essa vigilância, evitar os escolhos que se ocultam nas proximidades de nossas tendências normais".

(Pe. Bureau: A indisciplina dos costumes)


Anticristo - Cardeal Pie

"Perseverai na fé, caríssimos irmãos; perseverai também nas obras, sobretudo nas obras de caridade. É uma doutrina constante e que não deve ser abandonada a nenhum preço: aqueles que crêem em Deus são os que tomam a frente das boas obras: a humanidade, e principalmente, a humanidade sofredora encontrará sempre consolo desse modo. Não ouvimos dizer também, que nesses últimos dias, a esmola feita por sentimento sobrenatural e segundo as tradições da piedade cristã não terá lugar no seio de nossas sociedades e que seu “selo eclesiástico” será uma ofensa à dignidade dos necessitados que se tenta aliviar? O naturalismo, o ardor que põe na secularização de tudo, entende que fazer o bem é obra puramente humana, profana e não tem nada em comum com a ordem da graça e da salvação. Propósito execrável, e se pudesse chegar a desencorajar a caridade cristã e sacerdotal, conseguiria neutralizar as mais oportunas fontes de alívio dos infelizes. Ah! Eu vos diria ainda: “cuidado com o anticristo”: “unum moneo: cavete antichristum”. Mas tenham os olhos sempre fixos em Cristo; no menino Jesus do estábulo de Belém; no operário-Deus do ateliê de Nazaré; naquele que, sendo rico por natureza fez-se pobre para nos enriquecer com sua humilhação; naquele que será um dia nosso juiz, e que, em consideração com essa multidão de operários indigentes e privados de trabalho que terá sido aliviada por amor a Ele, nos fará possuir o reino que seu Pai nos preparou".

Cardeal Pie: Anticristo: Instrução pastoral - Quaresma 1863.


Necessidade de doutrinas firmes

"Hoje mais do que nunca (...) a sociedade tem necessidade de doutrinas firmes e coerentes consigo mesmas. Em meio à destruição geral das idéias, somente a asserção, uma afirmação nítida, sólida, sem misturas, logrará ter aceitação. Os ajustes se tornam cada vez mais estéreis e cada um arranca uma fatia da verdade (...). Mostrai-vos, pois, tal como sois no fundo: católicos convictos. (...)
Há uma graça unida à confissão plena e inteira da fé. Esta confissão, como diz o Apóstolo, é a salvação dos que a fazem, e a experiência mostra que é também daqueles que a escutam."

Dom Prospér Guéranger. "Le Sens Chrétien de L'Histoire" Nouveile Aurore, Paris, 1977. pág. 31-32.